Teatro Carlos Câmara: o povo da rua no palco e na plateia

15 de dezembro de 2014

A dez dias da comemoração do nascimento de Jesus pelos cristãos, o Teatro Carlos Câmara apresenta ao público o espetáculo Auto de Natal com Moradores de Rua. A exibição, gratuita, ocorrerá nesta segunda-feira (15), a partir das 18h, na ampla área externa do equipamento mantido pela Secretaria da Cultura do Ceará, localizado na Rua Senador Pompeu, 454, no Centro de Fortaleza.

 

O espetáculo é feito por pessoas que vivem pelas ruas e também para elas, que estão sendo mobilizadas para comparecer ao teatro. Logo após a apresentação, aberta ao público em geral, será um servido um jantar para o elenco e a plateia.

 

Sob a direção do coordenador do Teatro Carlos Câmara, Fernando Piancó, o auto de natal vai reunir dez pessoas que vivem pelas ruas da cidade. Os ensaios começaram no mês de novembro, sempre no mesmo dia e no mesmo horário, mas o grupo inicial de 17 potenciais atores diminuiu para dez, o que ainda é comemorado pelos organizadores, dada a dificuldade para estabelecer contatos com essa população, que não tem endereço fixo nem outros canais de comunicação, a não ser o encontro fortuito das ruas e praças.

 

Durante o espetáculo, os atores terão a oportunidade de apresentar o que foi ensaiado e também de improvisar o texto para falar da própria realidade. Há quem declame “Os reis magos” do poeta Olavo Bilac:

 

“Diz a Sagrada Escritura

Que, quando Jesus nasceu,

No céu, fulgurante e pura,

Uma estrela apareceu”.

 

E há quem recite Manuel Bandeira como se dissesse de si mesmo:

“Vi ontem um bicho na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

 

A realidade vai se fazer presente também na cenografia, com um presépio onde a manjedoura será uma carroça para recolhimento de lixo e o ouro, o incenso e a mirra dos reis do oriente serão substituídos por água, pão e papelão, tão indispensáveis a quem vive pela ruas. O Menino Jesus é Davi, filhinho de Angélica, que fará o papel de Maria.

 

O diálogo entre prosa e poesia, fantasia e realidade, foi sendo construído a partir de um roteiro compartilhado entre o diretor e o próprio grupo. Nessa construção de papéis, tem espaço até para um casal que discute em cena a fé e a descrença em Deus e para um “Luiz cantor” que se perde e também se encontra na invisibilidade das ruas, mas que ali, no palco da agradável e amplíssima área externa do Teatro Carlos Câmara, vai ser visto e ouvido com sua música.

 

A proposta do espetáculo é chamar a atenção da sociedade para esse público. “São pessoas invisíveis, que ninguém sabe ou quer saber o nome, que fazem parte de uma população deserdada. É importante que se faça algo, pois entre elas temos muitos talentos e potenciais sendo desperdiçados”, observa o diretor e idealizador do espetáculo, Fernando Piancó, que se diz ator desde que nasceu, mas começou a atuar profissionalmente a partir de 1978, quando criou em Fortaleza o grupo teatral Raça.

 

Pois é na raça que ele dá continuidade à carreira, com a disposição de enfrentar e superar desafios. O Auto de Natal com Moradores de Rua é um deles, como também foi o trabalho que realizou, quando residia no Rio de Janeiro entre as décadas de 1980 e 1990, envolvendo na montagem de peças de teatro os adolescentes internos das extintas Fundação Nacional do Bem-Estar Social do Menor (Funabem) e Fundação Estadual de Educação do Menor (Feem).

 

Para Piancó, o auto de Natal em preparação é uma doação, mas também uma troca, que deve ser vivenciada todos os dias. Não é por acaso que o bem humorado e espirituoso ator e diretor teatral sempre saúda aos quem convivem com ele, independente dos dezembros, com o desejo de Feliz Natal. “Todo dia nasce um Menino Deus”, conclui.

 

Nos bastidores há dois mensageiros de esperanças

 

O Auto de Natal com Moradores de Rua tem nos bastidores um religioso com nome de santos, que se diz mensageiro da esperança, e uma enfermeira que também assume esse papel, desenvolvendo ações pela saúde física e também pelo bem-estar emocional das pessoas que vivem pelas ruas. Ele é Irmão Francisco Santana, responsável pela articulação de uma plateia especial para o espetáculo desta segunda-feira no Teatro Carlos Câmara. Ela é Argina Gondim, idealizadora do espetáculo, iniciativa que pretende replicar de outras formas e em outros momentos.

 

“Eu comecei a perceber muita animosidade entre os moradores de rua. Então, pensei em fazer algo que pudesse evidenciar os talentos que encontro na rua. A ideia é dar continuidade a essa ação, para que eles voltem a se amar, se sintam importantes e tomem outros caminhos”, aponta Argina, que também é presidente da Associação de Amparo ao Paciente com Tuberculose e faz um trabalho de busca ativa para identificar casos da doença, encaminhando o tratamento.

 

Com uma experiência de 25 anos na instituição religiosa Fraternidade do Servo Sofredor, Irmão Francisco é também protagonista de ações que buscam devolver a dignidade perdida por tantas pessoas que vivem pelas ruas. “Eu conheço a maioria dessas pessoas pelo nome. Na nossa casa, de domingo a domingo, servimos café, almoço e jantar. Eu sou um católico, mas poderia ser um evangélico, um espírita, um umbandista, um maçom. O que importa é fazer o bem. Jesus Cristo não é dos pobres e dos fracos, ele é de todos, mas nasceu para os mais pobres e os mais fracos”.

 

Um defensor e praticante da caridade, no sentido mais nobre da palavra, Irmão Francisco também é um questionador das políticas públicas criadas para atender a população de rua. “Eu não vejo uma política pública eficaz. A violência de que tanto se fala está associada com a questão das drogas, que precisa ser combatida a partir do álcool, considerada uma droga lícita. Mas na população de rua, não tem só violência e consumo de droga, também temos talentos. O Auto de Natal com Moradores de Rua é a oportunidade de tratar de outros valores relacionados ao nascimento de Jesus, não aqueles apresentados pela sociedade de consumo”, contesta Irmão Francisco, que também é filósofo e teólogo.

 

O espetáculo é também um momento para enfatizar as necessidades que a população de rua tem. “Que Menino Jesus traga a esperança para os moradores de rua, como a recuperação das drogas, um aluguel social, um banheiro químico, os documentos, um trabalho, o reencontro com a família”, lista Irmão Francisco, com a vivência de quem muito sabe sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que vivem nas ruas ao acompanhá-las para um atendimento no hospital ou no posto de saúde, para tentar localizar a família ou para tirar um documento.

 

As palavras de Irmão Francisco são como uma mensagem de Natal válida para todos os dias. “Amar é um dom de Deus, mas não é fácil. Amar é tentar impedir que os outros sofram”. Ele tenta e nos ensina.

 

Serviço

 

A instituição religiosa Fraternidade do Servo Sofredor recebe doações em gêneros alimentícios para atender a população de rua

Endereço: Rua Carneiro da Cunha, 219 – Jacarecanga

Telefone: (85) 8805.0483

15.12.2014

 

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