“Especial Silvia Moura 40 anos” em sua última apresentação nesta quarta-feira (28)

27 de janeiro de 2015

Em 50 anos de vida e 40 de arte, o que distingue a atriz, bailarina e coreógrafa cearense Silvia Moura? Uma palavra é pouco. Só uma alma grande para comportar em corpo tão pequeno, 1,50m, uma abundância de adjetivos: aguerrida, arrebatadora, briguenta, caótica, comovente, constante, implicante, incansável, incomodante, inconformista, instigante, inquieta, inteligente, irreverente, marcante, militante, obsessiva, obsesSilvia, opiniosa, permanente, profunda, provocadora, questionadora, resistente, sensível, vigorosa… É o que dizem ou escrevem sobre ela. Quem quiser conferir os atributos ou reconhecer e apontar outros terá a oportunidade de assistir ao “Especial Silvia Moura 40 anos”, no Teatro Carlos Câmara, em última apresentação nesta quarta-feira (28), às 19 horas. A “Temporada de dança” faz parte da programação gratuita “Centro em Cartaz”.

 

Encerrando essa primeira das muitas comemorações que devem acontecer em 2015, a atriz, bailarina e coreografá se apresenta com “Anatomia das coisas encalhadas”, nessa quarta-feira (28), dentro da Plataforma de Circulação de Artes Cênicas do Ceará, uma iniciativa da Fundação Amigos do Theatro José de Alencar, com patrocínio da Petrobras, Mecenato Estadual e Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). A estreia foi no último dia 14 de janeiro, com os espetáculos “Engarrafada” e “À beira de…”. No dia 21, Silvia Moura voltou ao palco do equipamento, localizado na Rua Senador Pompeu, 454, pertinho do Passeio Público, no Centro da cidade, para apresentar “Instalaformance – Vestida de luz”. 

 

Os espetáculos que Silvia Moura faz na “Temporada de dança” do Teatro Carlos Câmara neste mês de janeiro são trabalhos solos que a artista desenvolve desde 2012, quando deixou de atuar em grupos. Sobre a primeira apresentação comemorativa da trajetória de 40 anos, ela revelou que foi especial, embora não tenha sido fácil. “Hoje fiz dois espetáculos seguidos no Teatro Carlos Câmara. Não foi fácil. Já no início constatei que conhecia todas as pessoas da plateia, pude falar de um por um. Foi muito interessante isso, conhecer todos, não havia ninguém no público que eu já não tivesse visto ou falado pelo menos, e a maioria composta de amigos. Foi especial. E pela primeira vez falei em público desse momento – 40 anos de dança”.

 

O percurso começou em 1975, com apenas dez anos de idade. Os primeiros passos foram dados na academia da bailarina Ana Virgínia Valente. Cinco anos depois, Silvia já era professora, e aos 16 anos, entrou no Grupo de Dança Dora Andrade, a bailarina que idealizou a Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente (Edisca), surgida mais tarde, em 1991. Inquieta, buscando dar acesso à formação e à pesquisa em dança contemporânea, deixou o Grupo de Dança Dora Andrade em 1988, criou o Grupo Em Crise, reunindo atores e bailarinos até 1998, e em 2002, o Centro de Experimentações em Movimentos (CEM), onde permaneceu até 2012.

 

Com uma disposição para a militância artística, Silvia é uma das vozes ativas do Fórum de Dança do Ceará e uma das referências do Movimento Arte e Resistência (MAR), criado em 2012, a partir do Fórum das Linguagens, congregando os artistas em ações e manifestações públicas pelo direito ao acesso à cultura e em defesa dos agentes culturais. Ela vai além e ocupa espaços, institucionais ou não, para o exercício político, como o Conselho Municipal de Cultura da Secretaria da Cultura de Fortaleza e o Colegiado Setorial de Dança do Ministério da Cultura.

 

Da arte de fazer política e da política de fazer arte

 

Artista militante, Silvia Moura não passa despercebida no palco dos teatros ou das ruas. Como não se surpreender com ela em plena madrugada, correndo por uma grande avenida de Fortaleza e, ao fim da performance, cortando o próprio cabelo há pouco esvoaçante? Como não admirá-la vestida de plásticos pretos, em Sobral, Itapipoca ou no Crato, confundindo-se com a paisagem urbana e, ao mesmo tempo, diferenciando-se nela, gritando em silêncio por ela? Louca é mais um adjetivo a ser acrescentado à lista de qualificações, para uns, ou desqualificações, para outros. “Silvia Moura não fica na zona de conforto e também não deixa muita gente na zona de conforto”, avalia a gestora cultural Eliza Gunther, diretora do Theatro José de Alencar entre 2004 e 2006.

 

Por essa e outras características, Silvia Moura foi uma das homenageadas em 2012 pelo bloco carnavalesco “Doido é tu”, que levou para a Avenida Domingos Olímpio, na capital, a marchinha “De artista e de louco, todos nós temos um pouco”. A agremiação reconheceu artistas considerados loucos que prestaram relevantes serviços à humanidade, como os pintores Salvador Dali, espanhol; Van Gogh, holandês; e Arthur Bispo do Rosário e Chico da Silva, brasileiros. Silvia Moura estava entre os cearenses homenageados como artistas militantes das causas sociais. Campeão na categoria “Blocos e cordões”, o Bloco “Doido é tu” reúne como foliões usuários e profissionais dos serviços de saúde mental de Fortaleza.

 

Conhecida e reconhecida pela arte propriamente dita e também por utilizar a expressão artística como instrumento político, Silvia exerce o ativismo no palco e fora dele. “Ela faz toda uma diferença no cenário da dança. É muito aguerrida, questionadora, não se molda a muitos modelos e tem um processo criativo fantástico. Não pára de inovar, não se coloca no lugar comum e tem coragem de continuar com uma capacidade criativa forte”, acrescenta Eliza Gunther, idealizadora e articuladora do bloco que homenageou a atriz, bailarina e coreógrafa. “Ela ainda não tinha recebido da cidade o reconhecimento e a homenagem que merecia pelo trabalho artístico e pela luta”, justifica Eliza, que tem acompanhado grande parte dos 40 anos da trajetória artística de Silvia. “O que a distingue como artista é a constância, a permanência, a resistência, a persistência, a pesquisa, o inconformismo e a irreverência”.

 

Vida e arte numa bela confusão

 

Com 50 anos de idade, 40 deles como artista, a vida e a arte em Silvia Moura se confundem. “O trabalho da Sílvia Moura como atriz, bailarina e coreógrafa é como ela: vigoroso, instigante, marcante, aguerrido, com umas pitadas de irreverência. São marcantes as performances, como ‘A cadeirinha e eu’, ‘Anatomia das coisas encalhadas’, entre outras”, reforça Fernando Piancó, ator, produtor e coordenador do Teatro Carlos Câmara, o primeiro equipamento público a comemorar a data com a artista e o público.

 

Como tudo em Silvia Moura parece marcante, o primeiro encontro com Piancó não seria diferente. “Conheci a Silvia Moura, no começo dos anos de 1990, ao desembarcar em Aracati para participar de uma mostra de teatro promovida pela Federação Estadual de Teatro Amador (Festa). Num primeiro momento, já senti a personalidade da Sílvia Moura: aguerrida, briguenta, opiniosa. Discutimos na Rua Grande sobre uma troca de dia e horário de apresentação da mostra. Eu não topei, ela ficou brava. Nada grave, coisa pequena para a Rua Grande. Ficamos amigos e acompanhamos a vida e os trabalhos, mesmo que de relance, um do outro. Ora estamos mais próximos, ora mais distantes, mas sempre sabendo o que está acontecendo com cada um de nós”, relembra Piancó.

 

Completando 37 anos de atuação profissional nas artes cênicas em 2015, o coordenador do Teatro Carlos Câmara considera que Silvia Moura sempre está onde se necessita de pessoas que opinem e lutem por melhorias na vida de quem faz cultura e arte. “A Silvia é uma artista guerreira e, além de tudo isso, é mãe e companheira de quem já está com o pé nessa estrada”, diz Piancó, que também dirigiu o Theatro José de Alencar no período de 1999 a 2002.

 

O bailarino e coreógrafo Fauller subiu pela primeira vez ao palco do principal teatro do Ceará para dançar, quando ainda nem sabia se seguiria carreira na dança, em 1994, a partir do contato inicial com Silvia Moura. “Eu já fazia teatro e, então, participei de uma oficina longa, de cerca de oito meses, que ela estava dando no Theatro José de Alencar, sobre a dança no teatro, e que resultou na montagem de um espetáculo”, conta.

 

Além dos primeiros passos na dança, Fauller aprendeu com Silvia Moura a olhar as artes e o mundo com outros olhos. “Ela já era muito experiente e bastante ativista no cenário. Aprendi a ter os primeiros olhares politizados sobre as questões em termos de arte e da sociedade. Não era só fazer aula de dança. Ela já nos colocava para um mundo muito diferente quando a gente tem aos 15 anos, descortinando possibilidades de ver o mundo com um olhar mais crítico”.

 

A escolha de Fauller pela dança ainda demorou uns três anos para se consolidar, mas logo no começo, em 1998, quando Silvia Moura estava ingressando no Curso de Direção Teatral do Instituto Dragão do Mar e no Colégio de Dança do Ceará, ele dançou um espetáculo dirigido por ela e, mais recentemente, a partir de 2011, fez a releitura de um dos trabalhos mais emblemáticos dela, “A cadeirinha e eu”, que aborda a subjetividade feminina, trata dos percursos de uma mulher, da infância à fase adulta, com humor e delicadeza, numa mescla de teatro e dança, travando um diálogo de cumplicidade com a plateia e trazendo para a cena reflexões sobre vida, casamento, maternidade, maturidade e morte.

 

Além da capacidade de pegar pessoas que nunca dançaram, que não têm qualquer técnica em dança, iniciá-las e colocá-las em cena, Fauller considera que Silvia se distingue no cenário local da dança por outros atributos como artista. “Ela é inteligente e caótica, tem uma capacidade de pegar o caos e transformar em algo produtivo, com qualidade, consistência, peso político, força no discurso”.

 

Dança-desabafo e muito mais

 

Quando Silvia Moura chegou aos 50 anos de idade, no dia 11 de novembro de 2014, o ator, diretor e pesquisador Ricardo Guilherme escreveu publicamente, virtualmente, poeticamente: “Sílvia, obsesSílvia, Moura bailarina, que dança palavras com a trilha sonora de si mesma, em coreografias de acontecimentos. 50 anos de toda militância e toda implicância por tudo. Em nome do Todo e para todos. Abraço nota dez pelo seu dia onze”.

 

A bailarina que dança palavras com a trilha sonora de si mesma é provocadora. Os trabalhos “Eu me importo”, “Corpo-lixo-cidade”, “Instalaformance – Vestida de luz” e “Não pise no vestido” compõem uma série que ela intitulou como “Dança DESABAFO”, assim mesmo, em caixa alta. “Eu me importo” estabelece uma relação com o público, cujas opiniões passam a definir as cenas. “Corpo-lixo-cidade” é uma interferência que habita e redesenha pessoas e arquiteturas das cidades, num trajeto urbano traçado pelas relações da Silvia performer com o lixo encontrado. “Instalaformance – Vestida de luz” e “Não pise no vestido” têm a luz como estímulo de composição, relacionando instalação e performance: “Escolher o que será revelado, escolher o que será escondido. Dar luz ao que não é dito. Criar imagens, ser imagem. Aguçar, projetar, expor, extrair, iluminar, escurecer, mover-se. A busca de viver uma vida cheia de mim”.

 

Para quem ainda não viu Silvia Moura ou para quem deseja ter o prazer de revê-la, o que ela escreve é um convite tentador. “Percebo que sempre que toco o fundo do poço e sinto sua lama fria prender meus pés, há sempre algo que me toca mansamente os dedos da mão – a dança. Ela nunca me deixa só no escuro, nem quando fecho os olhos e penso ter desistido de tudo. Aos poucos e lá ao longe me vejo dançando. E penso: não, ainda não. Tenho espetáculo amanhã e tudo será diferente. E então devagar vou reencontrando-me, recompondo-me para me dividir e me repartir em cena. É assim que convido vocês a estarem comigo mais uma vez”.

 

Serviço:

Especial Silvia Moura 40 anos – Temporada de dança
Última apresentação nessa quarta-feira (28), com “Anatomia das coisas encalhadas”, às 19h, no Teatro Carlos Câmara – Rua Senador Pompeu, 454 – Centro
Mais informações:
(85) 3254.5542 – 8607.5502
pavilhaodamagnolia.com.br
facebook/centroemcartaz
Grátis

 

27.01.2015

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