Medalha da Abolição: Dr. José Huygens é referência do transplante de fígado no País

23 de Abril de 2015

O governador do Ceará, Camilo Santana, anunciou, no dia 25 de março, os nomes dos agraciados da Medalha da Abolição. São eles, o médico, doutor, especialista e responsável pelo programa de transplante de fígado no Estado, José Huygens Parente Garcia; a farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que empresta seu nome à Lei Maria da Penha, e o arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo. A entrega da Medalha acontece no próximo dia 25 de abril, às 17h30min, no Palácio da Abolição.

 

Nesta semana, o Portal do Governo do Ceará faz uma cobertura especial, trazendo entrevistas com os homenageados que dividem suas experiências com todos os cearenses.

O primeiro bate-papo é com o Dr. José Huygens Parente Garcia. Cearense, nascido na cidade de Crato, o médico é filho do agricultor Huygens Correia Garcia e da professora Maria Parente Garcia, sendo casado com a médica nefrologista Regina Célia Ferreira Gomes Garcia com a qual tem cinco filhas. José Huygens Parente é cirurgião graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC),  doutor em Farmacologia também pela UFC e membro titular da Academia Cearense de Medicina, desde janeiro de 2015, ocupando a cadeira 13. Médico humanista, o Dr. Huygens é uma referência nacional no transplante de fígado.

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dr 2– O senhor é um caririense nascido no Crato, onde cursou o Colégio Diocesano. Como este início da vida escolar influenciou a sua escolha pela medicina?

 

Dr. José Huygens Parente – Essa é uma questão bem interessante, pois já no segundo grau (ensino médio) eu já havia decidido entrar para a faculdade de Medicina. O que fez com que essa minha vocação ficasse ainda mais clara foi durante uma gincana de biologia que teve no Colégio, da qual fui vencedor. Por estudar bastante a disciplina, já tinha determinado – já na época – que queria cursar Medicina e, inclusive, que queria ser cirurgião. Essa definição foi muito precoce e foi mantida durante toda a minha vida.

 

– Como foi sua chegada à Capital?

 

Dr. Huygens – Vim para Fortaleza em 1976, pois, na época, na cidade do Crato e região, não havia faculdade de Medicina. A faculdade, já naquele ano, era muito concorrida, por isso eu tinha de ter uma maior dedicação e determinação. Eu disse para minha família, quase toda de agricultores e com recursos escassos, que só tinha uma opção que era passar. Morar em Fortaleza era muito dispendioso para os meus pais, portanto tinha de terminar para retribuir minha família e exercer minha profissão o mais rápido possível.

 

– Neste período, como o senhor descreve toda essa experiência?

 

Dr. Huygens – Acho que a palavra que posso descrever seria: determinação. Às vezes, meus colegas de quarto chegavam das festas nas madrugadas, eu estava estudando. Eu sempre dizia: “Não vou abrir mão dos meus sonhos e nem das minhas conquistas. Eu quero e vou passar”.

 

– Num momento em que a medicina está cada vez mais avançada e apoiada por uma tecnologia de ponta, como o senhor avalia a importância da vocação na vida profissional do médico?

 

Dr. Huygens – A vocação é essencial por termos em nossa profissão é um exercício muito árduo, pois nós temos de trabalhar em horários não habituais. Por isso, você tem que, acima de tudo, gostar do que faz. Se você não tem a vocação e não gosta daquilo que faz você não será um bom profissional. Além disso, um bom médico não é somente aquele que tem conhecimentos técnicos excelentes. Também tem que ter amor com o paciente, se dedicar à família do ente tratado e ter um relacionamento familiar muito estreito. Ele tem que, muitas vezes, entrar na vida da família do paciente e participar de toda sua preocupação. Então, um bom médico não se faz só com conhecimentos técnicos, mas também com humanidade.

 

– O que tem se percebido pelo do senso comum, nos últimos anos, são profissionais da saúde cada vez mais práticos, menos didáticos e, principalmente, menos humanistas no tratamento com o paciente. Qual a sua avaliação do reflexo desta atitude no tratamento?

 

Dr. Huygens – No final, sempre o paciente é o maior prejudicado. O médico tem que, primeiramente,  fazer um atendimento personalizado com seu paciente –  conversar, ter uma boa história clínica –  e examinar. Só depois que são pedidos e feitos os exames complementares que, certamente, vão ajudar. O diagnóstico, hoje, ainda é o clínico e o exame que se faz é auxiliar, embasando toda a análise feita pelo médico. Além disso, o paciente precisa entender o quê tem, tirar suas dúvidas, ser tranquilizado da melhor forma possível. Isso é essencial na relação ainda próxima entre médico e paciente.

 

unnamed1edit– Como professor [titular do Departamento de Cirurgia da UFC], que diretrizes que o senhor dá aos seus alunos e aos novos médicos sobre como deve ser tratada a Medicina atualmente?

 

Dr. Huygens – Eu lido com estudantes e médicos em todas as etapas de sua formação (graduação, especialização, mestrado e doutorado) e sempre falo que o mais importante é a relação estreita entre o médico e o paciente. Muitos de nós não queremos médicos com os conhecimentos técnicos de equipamentos e procedimentos de última geração. Nós queremos alguém que tenha tempo para a gente, que nos dedique seus conhecimentos à nossa família. O paciente precisa de um médico que tenha tempo e esteja à disposição. Isso não substitui nenhum exame complementar, só reforça a confiança entre o paciente e o seu médico, estando sempre disponível.

 

– O cenário da saúde pública brasileira tem dificuldades históricas e problemas crônicos – como, por exemplo, a falta de leitos e o ainda insuficiente grau de universalização do atendimento. Na sua opinião, como a saúde pública brasileira pode superar esta situação?

 

Dr. Huygens – O que acontece hoje, principalmente no serviço emergencial: hospitais todos superlotados. No Ceará, os principais hospitais estão todos sempre lotados. Em contrapartida, sejamos coerentes, nunca se construiu tantos hospitais de excelência no Ceará: o Hospital Regional do Cariri, Hospital Regional da Zona Norte, estão construindo a de Quixeramobim, diversas Unidades de Pronto Atendimento. Porém, nossa situação ainda não está resolvida, pois a demanda ainda é muito grande. Temos que tratar do ponto de vista epidemiológico social, discutindo e realizando ações sociais e educacionais para toda a população. A educação é a forma mais eficaz para resolvermos de forma mais efetiva os casos de superlotação de nosso leitos.

 

– Sobre a condecoração, qual é o seu sentimento ao receber a Medalha da Abolição, a maior comenda do Estado?

 

Dr. Huygens – Eu realmente não esperava. Na verdade, eu fiquei muito surpreso quando, naquele feriado de 25 de Março, recebi a ligação informando que era do Governo do Estado. Inicialmente, achei que fosse uma brincadeira ou trote de algum amigo, mas logo em seguida o próprio governador, Camilo Santana, ligou pessoalmente para mim. Então, ele me informou, em primeira mão, que eu havia sido um dos agraciados com a Medalha da Abolição. Logicamente, eu fiquei muito emocionado, envaidecido e agradecido por receber a mais alta comenda do Estado. Esta condecoração, eu divido com toda minha equipe multidisciplinar que me ajuda e participa ativamente de todos os transplantes. Pois, atualmente, não se consegue implantar e dirigir uma cirurgia de tamanha complexidade se não for com a participação e envolvimento de todos. Desta forma, agradeço sempre a minha equipe que é nota 10, vocacionada e está presente em todos os passos do transplante.

 

 

Foto: Marcos Studart

 

 

23.04.2015

 

Wilame Januário
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Wilson Zanini
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