Medalha da Abolição: Fausto Nilo, o homem por trás do lirismo poético e da sensibilidade arquitetônica

24 de abril de 2015

O governador Camilo Santana anunciou, no dia 25 de março, os nomes dos agraciados da Medalha da Abolição. São eles, o arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo; a farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que empresta seu nome à Lei Maria da Penha, e o médico, doutor, especialista e responsável pelo programa de transplante de fígado no Estado, José Huygens Parente Garcia. A entrega da Medalha acontece no dia 25 de abril, às 17h30min, no Palácio da Abolição.

 

Nesta semana, o Portal do Governo do Ceará faz uma cobertura especial, trazendo entrevistas com os homenageados que dividem suas experiências com todos os cearenses.

 

RFausto Nilo2Desta vez, conversamos com Fausto Nilo, conhecido por suas composições e vanguardismo arquitetônico e urbanístico. Cearense, nascido na cidade de Quixeramobim, a 224 Km de Fortaleza, o também poeta é o quarto dos sete filhos de Luís e Hilda Costa. Morou na casa em que nasceu o ilustre Antônio Conselheiro. Com 11 anos, o menino Fausto vem para Fortaleza, onde estuda e se forma no Liceu do Ceará. O arquiteto foi da primeira turma da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Ingressou no curso em 1965, já desenhando profissionalmente. Entre seus primeiros projetos, está a estação Santa Cecília do metrô paulista. Com seu amigo desde a adolescência, o também arquiteto Delberg Ponce de Leon, o urbanista fez uma parceria de projetos de sucesso, entre eles: a concepção da nova Praça do Ferreira e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Na música, o compositor tem suas poesias cantadas nas mais diversas vozes do Brasil, entre alguns de seus intérpretes estão: Raimundo Fagner, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Nara Leão e Gal Costa.

 

RfaustoFAUSTO NILO QN9097– O senhor é definido no meio da arquitetura e na cena artística como um pensador urbanista e também como um arquiteto das palavras. Não abrir mão de nenhuma destas duas paixões foi uma escolha pessoal?

 

Fausto Nilo: Na minha vida, o interesse por coisas criativas aconteceu de uma maneira muito precoce. Com oito ou nove anos, eu já desenhava. Essa foi a primeira coisa que encontrei como desafio do meu lado criativo: a arte de desenhar. Até a adolescência, isso tudo alimentava um sonho de algo que eu via com uma certa distância, pois não convivia e não tinha a noção da arte em si. O meu plano era ser um artista plástico, que, na época, nem existia esse nome. Chamavam-se de pintor.

 

– Como se deu a sua chegada de Quixeramobim para Fortaleza e o seu começo de carreira?

 

Fausto: Eu vim para Fortaleza com 11 anos e fiquei na casa de parentes. Minha mãe veio com os meus irmão e tentou residir em Fortaleza por duas vezes, mas acabou não dando certo e acabei morando com alguns desses parentes. Com isso, eu tive que começar a trabalhar, pois tinha que ajudar a reduzir a obrigação que meus pais tinham com a minha mesada por morar aqui na Capital. Meus pais eram de classe média baixa, do Interior, donos de uma pequena padaria. Então, para me capacitar e transformar o desenho em uma atividade profissional, descobri em conversa com os amigos que havia um curso por correspondência que preparava para ser um desenhista de arquitetura e auxiliar os profissionais da área. Eu fiz. O que acabou me dando um treino e não, de fato, uma capacitação. Através desta preparação, consegui um emprego onde conheci o Delberg [Ponce de Leon] que já estava a alguns dias também treinando. Acabou que nós fomos os dois aprendizes, de maneira compartilhada, e até hoje – mesmo em escritórios separados – mantemos algumas parcerias, além de uma amizade de muitos anos. E, logo depois, me formei como arquiteto.

 

 – Nascido no Sertão Central do Ceará, como este cenário influenciou na sua formação como arquiteto?

 

Fausto: Acho que isso é uma característica muito sofisticada, indireta e filtrada. Também já se passou muito tempo desde que saí da cidade de Quixeramobim. Porém, existe uma memória profunda, de uma raiz de vida, dos amigos e familiares que acompanham os meus projetos, sem dúvida.

 

R150423 FAUSTO NILO QN9074– O senhor é considerado um dos maiores letristas da música popular brasileira, já tendo músicas gravadas por diversos ícones da MPB. Como surgiu a necessidade de se expressar pela poesia e, consequentemente, pela música?

 

Fausto: No ambiente da universidade, nasceu, pode-se dizer, aquela convergência daquilo que seria as minhas influências com a cultura dos poetas e da música do Ceará. Eu tinha um convívio com todos eles, mas, na realidade, não compunha. Eu cantava apenas informalmente. Mas, só fui me tornar letrista em Brasília quando morei dois anos lá. E foi aí que comecei minha primeira parceria com o cantor Raimundo Fagner, gravado por ele e depois pela cantora Marília Medalha. Então, virei essa pessoa que convive com a música e com a arquitetura. Aparentemente, pode ser confuso. Muita gente não compreende direito, mas não há conflito. São duas atividades que eu tenho igual dedicação. Nenhuma delas para mim são hobbies, pois são atividades profissionais e com toda a disciplina que elas exigem. É como se fosse duas linguagens diferentes de um mesmo conteúdo. A mesma visão que eu tenho da minha cidade e de seus aspectos urbanísticos, eu também tenho a mesma coerência naquilo que escrevo e componho.

 

– Vendo suas obras, podemos perceber que o senhor consegue traduzir sua linguagem de forma bem peculiar, resgatando a história e introduzindo elementos modernos. Como é traduzir isso em seus projetos?

 

Fausto: Uma grande infelicidade de um arquiteto é se a destinação daquela obra e o real motivo a que ela se propõe – como a forma de convivência entres as pessoas – for falha. Se isso falhar, não resta nada. Pode ser um projeto lindo e cheio de detalhes. Por isso, a responsabilidade do arquiteto é de comunicar. No caso, quando tive a oportunidade de redesenhar a Praça do Ferreira, com meu amigo Delberg – onde havia uma praça com pouco aceitação do público e, anteriormente, era amada pela população –, tínhamos a responsabilidade de devolvê-la não copiando a anterior, mas respeitando as principais caraterísticas do nosso tempo. Foi uma grande responsabilidade. Hoje, eu fico contente ao ver que a Praça voltou a ser utilizada e permanece com sua força de significação histórica e cultural. E, claro, fico ainda mais feliz porque, principalmente, as pessoas voltaram.

 

– Qual seria, na sua opinião, o modelo ideal de cidade considerando os contextos regional e nacional?

 

Fausto: Atualmente, há uma ansiedade muito grande em se fazer grandes projetos, em geral, no Brasil. Mesmo que esse fragmento escolhido para ser realizado produza, depois, comprováveis prejuízos e se transforme, muitas vezes, em impactos negativos. Por isso, nós [arquitetos], somos preparados para ver isso de uma maneira sistêmica. E isso é sempre um desconforto intelectual muito grande. Teria que se aceitar muito tempo para se fazer um bom planejamento e, em alguns raros momentos, ir culminando com soluções de emergências aos projetos. Nossa profissão se dedica a contribuir com esse planejamento. Por exemplo, as cidades estão cada vez mais dilatadas pelo uso indiscriminado do veículo motorizado, porém coincide por este produto ser o objeto de desejo pessoal de muitos. A tarefa do urbanismo nesse milênio é reduzir a motorização e a dependência do automóvel. Não é eliminar, mas é não ter que ir comprar apenas o seu pão em um carro. E este projeto está por se construir.

 

– E sobre a Medalha da Abolição, qual é o seu sentimento ao ser agraciado com esta comenda?

 

Fausto: Eu acho que este tipo de homenagem é um reconhecimento da minha comunidade. Sou muito ajuizado na forma de avaliar o meu lado pessoal nesta condecoração. Acho que com o tempo, idade e o que desenvolveu em sua vida, você vai sendo lembrado. Eu sou super agradecido pela lembrança do meu nome. Principalmente, por se tratar de uma homenagem dessas que vêm do poder público. Estou acompanhado de duas grandes pessoas, cujo o valor acho ser enormemente maior do que o meu, pois têm dado grandes contribuições sociais. E, sendo sincero, eu nunca pensei nessas premiações como um mérito meu. Eu divido isso com muito gente, pois tive muita sorte na minha vida de encontrado pessoas incríveis que, de maneira muito generosa, compartilharam seus conhecimentos e descobertas comigo. Divido com meus professores da Universidade Federal do Ceará, Liberal de Castro, Neudson Braga, meu colega arquiteto Delberg, meu parceiro Raimundo Fagner que me levou para as canções, as pessoas da minha família… É um conjunto tão grande de componentes humanos que deram a figura pública da qual me tornei e tome este tipo de reconhecimento. Então, tomo isso como algo que significasse para os outros. E sempre com a sensação de que não mereço tanto.

 

Fotos: Queiroz Netto

 

 

 

24.04.2015

 

Wilame Januário
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