CE Pacífico: o Vicente Pinzón que descobriu o Brasil e virou bairro em Fortaleza

4 de março de 2016

 

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Primeira matéria especial sobre o Vicente Pinzon narra a história do bairro e do navegador espanhol que teria chegado ao Brasil antes mesmo que Cabral

RMucuripe050pb okA história oficial sobre o Descobrimento do Brasil conta que o português Pedro Álvares Cabral desembarcou no sul da Bahia, em 22 de abril de 1500, em um local batizado de Monte Pascoal. Porém, existem relatos documentados de que, cerca de três meses antes, no dia 26 de janeiro, o espanhol Vicente Yáñez Pinzón já teria aportado na Ponta do Mucuripe, em Fortaleza, nomeando o local de Cabo de Santa Maria de la Consolación.

RRPanoramica20130524 TMUCURIPE JW2281 1Pelo feito, o navegador e explorador ganhou importância na capital cearense e acabou emprestando o nome a um dos bairros mais interessantes de Fortaleza. O local, que possui cerca de 45,5 mil habitantes e uma área de aproximadamente 3,07 km², possui forte ligação com o mar e com a cultura, esporte e gastronomia locais. Além de abrigar um dos pontos mais conhecidos da cidade, o Mirante, de onde se tem a mais bela vista do litoral fortalezense. Nas décadas de 1980 e 1990, o espaço chegou a ser um atraente ponto turístico, que agora começa a reviver os melhores dias.

TS6802 HISTORIADOR ANDRE webHoje, o bairro Vicente Pinzon se confunde com o Grande Mucuripe, um dos primeiros núcleos habitacionais de Fortaleza, que integra as comunidades do Cais do Porto, Castelo Encantado, Serviluz, Titanzinho, Mucuripe, De Lourdes e Santa Terezinha. Isso porque o espaço ganhou habitantes com a chegada de pescadores que foram “expulsos” da beira da Praia do Mucuripe, no anos 80. É o que explica o historiador André Aguiar Nogueira, que possui estudos acadêmicos sobre a região.

“Antes, a praia não interessava. Porém, a partir do momento que ela passou a ser comercialmente TS6835 webvalorizada, os ricos se apropriaram e expulsaram os pescadores para os morros que, hoje, abrigam comunidades do Vicente Pinzon. Ou seja, uma área que era de moradores pobres, essencialmente pescadores, foi tomada pela especulação imobiliária”, afirma.

Sobre a chegada de Pinzón ao Ceará, o estudioso diz que documentos comprovam a narrativa da descoberta espanhola. “Essa é uma historiografia que pouco se tem debate. Existem documentos no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro; no Arquivo das Índias, em Servilha; e na Torre do Tombo, em Portugal, mas não há interesse em descobrir uma colonização espanhola em um país essencialmente português. O fato é que nós temos aqui, TS6935 FRANCISCA GRACI webpossivelmente, o primeiro encontro entre os nativos e os estrangeiros que chegaram pra colonizar nossa terra”.

A moradora Francisca Graci Santos Monteiro, de 64 anos, que acompanhou o processo de urbanização do bairro, diz que o local é bem diferente do que pensam e indica a região como moradia. “Quem não conhece o Vicente Pinzon diz que aqui é um local mal frequentado, sem nenhum tipo de desenvolvimento, mas você é prova de que aqui vive gente de bem e que somos uma comunidade muito bem organizada e estruturada. São cidadãos e cidadãs, que ganham a vida honestamente, trabalhando no bairro e fora dele. Não troco minha comunidade por nenhuma outra e indico quem esteja procurando um lar na cidade”, enfatiza.

TS6894 webAndré esclarece que a denominação do bairro ainda é assunto confuso entre os moradores, pois muitos não aceitam a identificação atual. “As denominações que são delimitadas pelo poder público municipal não correspondem ao sentimento que os moradores têm pelos seus territórios. Por exemplo, parte do Serviluz é Cais do Porto e parte é Vicente Pinzon, mas as pessoas não se identificam nesses espaços”, explica André Aguiar Nogueira.

TS6922 CLEA CARDOSO webO sentimento a que ele se refere é narrado pela dona de casa Cléa Cardoso, que nasceu e se criou no conjunto Santa Terezinha e entende bem o processo de reurbanização do bairro. “A gente não sabe mais nem o que é Vicente Pinzon porque dizem que é Serviluz, Castelo Encantado, Titanzinho. Mas, pelo que conheço, essa região é o Conjunto Santa Terezinha, do bairro Vicente Pinzon. E essa confusão existe em todos os sentidos, desde o sentimento dos moradores até o registro das correspondências, pois, na minha casa, tenho contas que indicam dois bairros: Vicente Pinzon e Castelo Encantado”, exemplifica.

TS6779 webA região do Vicente Pinzon é uma área onde sempre predominou, e ainda predomina, a presença de pescadores. O profissional da pesca Francimar de Sousa, de 62 anos, conta que o local se desenvolveu com o passar dos anos, mas que nem sempre foi assim. “Na década de 80, nada disso existia por aqui. A escadaria que foi construída na comunidade é uma idealização minha. Eu e meu filho, sozinhos, tiramos muita areia daquela região, para auxiliar os moradores que desciam e subiam todos os dias o morro. A gastronomia ganhou força, mas, infelizmente, foi se perdendo. Aqui, temos uma das mais belas vistas da cidade e pouco se fala”.

Vicente Yáñez Pinzón

Rvicente pinzonNasceu em 1462, na cidade portuária de Palos de la Frontera, na Costa Atlântica da Andaluzia. Era de longe o mais jovem dentre seus irmãos, e provavelmente recebeu o sobrenome “Pinzón” de um certo Yáñez de Rodrigo Yáñez, um funcionário da administração municipal espanhola, que seria seu padrinho, como era costume na região. Desde muito pequeno aprendeu a arte de navegar com seu irmão mais velho, um dos mais destacados navegadores da época e participou desde a adolescência em combates e assaltos naqueles tempos conturbados. Casou-se duas vezes, a primeira com Teresa Rodríguez, que lhe deu duas filhas: Ana Rodríguez e Juana González. A segunda, ao voltar de sua última viagem, à península de Iucatã, em 1509, com Ana Núñez de Trujillo, com quem viveu em Triana, um bairro de Sevilha, até sua morte.

 

 

 

 

 

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04.03.2016

Fotos: José Wagner / Tiago Stille (Governo do Ceará) e Arquivo Nirez

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