Duas famílias comemoram um novo começo para os pais transplantados

28 de julho de 2016

Duas famílias com sentimentos, planos e uma alegria em comum: a conquista de um novo começo para os pais. Nesta quarta-feira (27), os aposentados Joaquim Nunes, 62, de Campina Grande-PB, e Clóvis Costa, 60, de Paraipaba aqui, no Ceará, receberam um novo coração. Os órgãos foram captados no Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte, e transportados para o Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes, em Fortaleza, ambos da rede pública do Governo do Estado, por duas aeronaves garantidas pelo Governo do Ceará para que os transplantes ocorressem em tempo efetivo e assim, Joaquim e Clóvis pudessem ter uma a oportunidade de verem os netos crescendo.

Apesar de não serem parentes e nunca terem se encontrado antes, Joaquim Nunes e Clóvis Costa compartilham de uma história que tem a mesma luta e o mesmo entusiasmo: a espera pelo transplante de coração. Joaquim foi diagnosticado com cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva aos 25 anos de idade, uma doença cardíaca de origem genética, progressiva, que compromete o bombeamento do sangue. Engenheiro agrônomo e servidor público federal, sempre viajou a trabalho. Foi em 1984 sua primeira cirurgia cardíaca. De lá para cá, Joaquim passou a viver mais atento às suas limitações por causa do problema cardíaco.

Foi entre 2012 e 2015 que o aposentado teve sucessivas paradas cardíacas. “Em 2012,  teve três paradas cardíacas seguidas. Em janeiro de 2013, colocou o marcapasso. Foi uma escolha: esperar um transplante ou colocar o marcapasso. No ano passado, em dezembro, foram duas paradas cardíacas. O marcapasso já não era mais suficiente. Então começamos a pesquisar e encontramos um hospital em Curitiba e o Hospital de Messejana no Ceará. A gente pesquisou e viu que aqui era referência, nos sentimos mais seguros vindo pra cá”, conta Aryuska Simone Lemos Nunes, 31, a terceira dos cincos filhos de Joaquim.

Em fevereiro deste ano, Joaquim esteve em Fortaleza para avaliação com consultas e exames no Hospital de Messejana. Um mês depois, pai, filha e esposa mudam-se para a capital cearense e passam a morar próximo ao hospital, mantendo a rotina de consultas e exames, já aguardando o novo coração. Em abril, enquanto era avaliado pela assistente social do hospital, como parte do cronograma do pré-operatório de transplantes, Joaquim teve uma parada cardíaca, a mais grave. “Foram quatro meses de internação. Parece que não é real, a gente esperou tanto, tantos momentos frustados. Ele foi chamado 15 vezes, 14 não deram certo porque as famílias acabavam desistindo de doar. Foi na 15ª vez que deu certo”, diz Aryuska.

Para Ivoneide Barreiro Lemos Nunes, 63, ao longo desses 36 anos de casados, ela e Joaquim tiveram muitas alegrias, conquistas, o nascimento dos filhos, dos netos e junto, a convivência com a aflição de o pior acontecer por causa da doença. “Foi sofrido. Como eu venho de uma família hipertensa, sempre tive medo de problemas de coração. Isso é muito forte. Sofri junto com ele. Eu estava grávida da Aluska quando ele teve a primeira parada cardíaca. E dessa vez, ela estava grávida da Analice. Na vida dele, sempre tem uma criança envolvida”, diz Ivoneide. Dos cinco filhos do casal, quatro têm o mesmo problema do pai. “Descobrimos cedo. E por não fazer extravagâncias e tomar os medicamentos, não tivemos problemas. Eu não podia engravidar. Nunca senti nada e Deus me deu esse presente”, comemora a farmacêutica Aluska Sayonara Lemos Nunes, 35, mãe da quarta e mais nova netinha de Joaquim, a pequena Analice Nunes dos Santos, que tem apenas três meses de vida. “Deus preparou tudo, perfeito, como sempre faz”, completa Aluska.

Amor que faz a diferença

Para a assistente social da Unidade de Transplante Cardíaco do Hospital de Messejana, Marilza Pessoa, a presença da família e o acompanhamento durante todo o processo clínico, antes, durante e depois do transplante, são de fundamental importância para o paciente, assim como o envolvimento da equipe multidisciplinar, formada por médicos, psicólogos, enfermeiros, assistente social. “Tudo o que eu faço é com amor”, diz Marilza. “Não é o dinheiro que faz o transplante acontecer, não existe isso. É o amor que essa equipe tem”, afirma a cabeleireira Eliane Pereira da Costa, 33, uma das cinco filhas do pedreiro aposentado Clóvis Costa. Ele e a família residem em Paraipaba, município do litoral Oeste do Ceará. Aos 60 anos, com nove netos e um bisneto, o aposentado agora se recupera do transplante de coração, na UTI do Hospital de Messejana.

“Em 2008, ele teve o primeiro infarto. Isso vem de família, uma irmã dele já morreu de doença no coração”, comenta Eliane. Clóvis Costa foi diagnosticado com miocardiopatia isquêmica, uma doença silenciosa, que dificulta a chegada do sangue e do oxigênio ao coração, devido à disfunção dos músculos cardíacos. “Há dois meses antes, ele sentiu uma dor no braço e na perna, então o infarto veio de uma vez”, relata Eliane. Desde então, as filhas revesavam e vinham acompanhar o pai. Alugaram uma casa perto do hospital e nunca deixaram o pai só. “A gente alugou a casa e vamos ficar o tempo que for necessário”, enfatiza Eliane e a irmã Maria Tatiane Pereira da Costa, 40, enquanto conversam com a assistente social. “A equipe do hospital agarrou o pai com unhas e dentes. Conheço um por um. Oito anos não são oito dias. Toda a equipe foi maravilhosa”, ressalta Eliane, falando sobre o trabalho dos profissionais do Hospital de Messejana, e a irmã  Tatiane complementa: “aqui é do faxineiro ao médico, os maqueiros, todos ajudam”.

A espera de Clóvis pelo transplante durou duas semanas. O primeiro coração compatível deu certo ser transplantado, pois não houve recusa da família do doador em nenhum momento, muito menos outras complicações. “Só em a família ter feito isso, salvado muitas vidas… Foi Deus, viu?”, diz Eliane. Agora, todos da família aguarda o reencontro, especialmente o bisneto. “Ele viveu pra esse bisneto de oito meses, porque praticamente a vida dele é essa criança”, afirma Tatiane. “Não cabe tanta felicidade no meu peito, é uma emoção muito grande. Tenho nem palavras, toda a família”, conclui Eliane.

Doe órgãos, ajude a salvar vidas

O processo de doação começa com a identificação e manutenção dos potenciais doadores. Para doar não precisa deixar nada registrado na carteira de identidade. Basta falar para a família da vontade de doar. Nos hospitais, o profissional da Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) realiza avaliação das condições clínicas do potencial doador, da viabilidade dos órgãos a serem extraídos e faz entrevista para solicitar o consentimento familiar da doação dos órgãos e tecidos. Em seguida, os médicos comunicam à família a suspeita da morte encefálica, realizam os exames comprobatórios do diagnóstico, notificam o potencial doador à Central de Transplantes, que repassa a notificação à CIHDOTT.

Para as famílias de Joaquim e Clóvis, a doação de órgãos e tecidos tornou-se real e mais ainda, mudou a escollha de amigos e parentes que agora passaram a ser doadores declarados. “A gente pede que doem, que todos doem. É um ato bonito. Já vi quem não era doador e agora é por causa da nossa história”, declara Tatiane Costa. “Doar é pensar no próximo com amor, é um gesto de amor. Estão dando a oportunidade ao outro de viver. É saber que tem um pedacinho do parente em outra pessoa”, fala Aryuska Nunes.

Fotos: Assessoria de Comunicação do HM

28.07.2016

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