História de amor leva mulher de interno ao empreendedorismo

14 de dezembro de 2017 # # # #

Caio Faheina - Repórter
Tiago Stille - Fotógrafo

Neste mês de dezembro, a série especial Ceará de Atitude costura a história de Claudiana Osório, companheira de um detento do sistema prisional cearense que se especializou na fabricação de salgados por meio de curso da Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso

É numa pequena lanchonete no bairro Novo Oriente, em Maracanaú, que Claudiana Osório refaz a própria vida. No local, que abriga cinco mesas com toalhas vermelhas e verdes, decoradas para o Natal, além de expositores de salgados e bebidas encostados em paredes com tons pastel, Claudiana tira o sustento, emprega quatro funcionários e edifica novos sonhos. No entanto, ela espera a liberdade de Célio, seu companheiro, preso há 3 anos, para os negócios melhorarem. “O que eu queria mesmo é que ele estivesse trabalhando comigo. Ele já trabalhava em confeitaria, antes de ser preso. Essas coisas que eu faço, ele também sabe fazer. Seria um milagre se ele saísse de lá pra gente trabalhar junto. A gente ia crescer bastante”, projetou a salgadeira.

Apesar do encarceramento do companheiro, Claudiana argumenta que foi justamente em uma das visitas à Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Cispe) que ela redefiniu alguns caminhos. Ela soube do curso para fabricação de massas e pães, oferecido pela coordenadoria, quando procurou saber do andamento do processo do parceiro – com quem já tivera uma relação estável, anos atrás, e cujo romance foi reatado em 2015, após visitá-lo pela primeira vez no Centro de Execução Penal e Integração Social Vasco Damasceno Weyne (Cepis), em Itaitinga.

A visita aconteceu após Claudiana encontrar a mãe do atual companheiro, à época ex-sogra, e ter descoberto que a pessoa com quem costurou vontades na adolescência havia sido presa. A salgadeira pediu para que a mãe, então, levasse um recado para o filho. E ele respondeu Claudiana com uma carta – escrita com a letra e a firmeza de quem aprendeu, no cárcere, a ler e a escrever além do próprio nome, aos 34 anos.

O encontro reaproximou os dois, separados pelo tempo. Juntos, estão, agora, à espera do fim da falta de liberdade – de Célio – que os desune. “Se ele saísse dali, que é o que eu peço todo dia, toda hora, a gente ia trabalhar junto”, reforçou. Claudiana também rememora a decisão de se prender a alguém que não possui a autonomia que ela detém. “Em nenhum momento pensei duas vezes, só pensei em chegar até ele e reatar o que a gente tinha deixado para trás”.

O curso

Apesar de trabalhar no segmento há mais de duas décadas, Claudiana, hoje com 45 anos, aumentou o cardápio recentemente, após se inscrever no curso da Cispe, coordenadoria ligada à Secretaria da Justiça e Cidadania do Ceará (Sejus). A oficina dá novos rumos aos familiares de detentos do sistema prisional cearense. “O salgado que eu não sabia fazer, eu estou sabendo. Aprendi a fazer tortas, empadas e vários outros tipos de massa”, listou.

Natural do município de Barroquinha, Claudiana aproveitou a oportunidade, e hoje, com um ano na oficina, indo todas as terças-feiras, já chegou a substituir a professora, quando necessário. “O curso me trouxe coisas e pessoas boas. O que a gente não sabe, aqui aprende. E eu já estou ensinando”, comemorou.

Mas o curso de fabricação de pães e salgados não ensinou Claudiana somente a colocar a mão na massa – o que ela já sabia desde a infância, quando deixou para trás o distrito de Bambú, em Barroquinha, para tentar a vida na Grande Fortaleza. Em tempos difíceis para o comércio, como ela analisa, a especialização trouxe mais autonomia para o negócio. As mãos dos confeiteiros e salgadeiros que circulavam pela Lanchonete Bambú – nome que homenageia as terras onde Claudiana viveu até os 13 anos, antes de partir para trabalhar como doméstica – foram, aos poucos, substituídas pelas dela. “Eu estava pagando uns R$ 2.400 pra alguém fazer isso. E, com o curso, eu mesma poderia fazer”, percebeu.

Os planos após a liberdade

Claudiana vendia caldos variados pelas ruas de Novo Oriente antes de iniciar a produção de salgados. “Depois comecei fazendo coxinha, mas a massa não ficava muito boa”, riu. Ela foi se aprimorando até o quitute “ficar no ponto”. Alugou o espaço onde até hoje funciona a lanchonete, porém o tamanho, ela calcula, era um terço do que é atualmente. Juntou dinheiro, comprou a área e chamou o irmão e a filha de 23 anos – fruto de outro relacionamento – para arriscar no comércio.

Agora, para ampliar as vendas, ela espera a soltura do parceiro, prevista para daqui a quatro anos. “Os planos da gente, quando eu estou na cadeia conversando com ele, é de eu fazer salgado, abastecer aqui, e ele sair numa motinha ou numa cargueira pra vender. Enfim, do jeito que Deus mandar”.

Saiba mais

A Sejus, por meio da Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Cispe), oferece qualificação para egressos e, eventualmente, para familiares de internos do sistema penitenciário. Em 2017, foram capacitadas 658 pessoas fora das unidades prisionais. Destas, 352 eram familiares de internos. Para eles, estão disponíveis cursos de bolos e pães, além de capacitação online, em parceria com o Instituto Mundo Melhor.

Serviço

Familiares de internos do sistema penitenciário podem procurar a Cispe para obter mais informações sobre os cursos ofertados.

Onde: Rua Heráclito Graça, 600 – Centro
Horário de funcionamento: 8h às 17h
Telefone: (85) 3101.7720

 

Veja a entrevista com Claudiana Osório: