Com o apoio do Edital Ceará de Incentivo às Artes, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, livro ‘Produção Cultural’ será lançado sexta

16 de setembro de 2015

Com o apoio do Edital Ceará de Incentivo às Artes, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, livro “Produção Cultural” será lançado sexta

Fruto de pesquisa inédita sobre a atividade dos produtores culturais no Ceará e no Brasil.

Livro da pesquisadora e produtora cultural Rachel Gadelha inclui entrevistas com 20 produtores e tem lançamento no dia 18 de setembro, às 19h, no auditório da Livraria Cultura, com direito a debate com o orientador, professor Alexandre Barbalho, com entrada franca

Profissional fundamental para a articulação entre artistas, públicos, apoiadores, espaços e para a concepção e a execução de ações, eventos e empreendimentos, movimentando grande volume de recursos públicos ou da iniciativa privada, o produtor cultural ainda é um profissional pouco conhecido e sem formação específica no Brasil. Partindo dessa realidade e procurando contribuir para modificá-la, a antropóloga e produtora cultural Rachel Gadelha, responsável por projetos consagrados, desenvolveu um inédito trabalho de pesquisa sobre os produtores culturais no Ceará e no Brasil. O resultado é olivro”Produção Cultural – Conformações, Configurações e Paradoxos”, fruto do mestrado em Políticas Públicas e Sociedade, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). A obra será lançada nesta sexta-feira, dia 18 de setembro, às 19h, com debate aberto ao público, no auditório da Livraria Cultura, em Fortaleza, entre a autora e o orientador, professor Alexandre Barbalho.

“O produtor é um personagem muito importante, é o profissional que bota a roda pra girar, que muitas vezes faz a política cultural chegar aonde o Estado não consegue chegar, que liga públicos, pessoas, artistas. É um roteador”, aponta a autora, que sob a orientação do pesquisador Alexandre Barbalho entrevistou 20 produtores culturais e destaca que, apesar dessa relevância, trata-se de uma atividade que existe há muito tempo, mas só recentemente começou a ser reconhecida como profissional, ainda sem a devida compreensão pela sociedade e sem o devido investimento em formação para lidar com desafios e realidades cada vez mais complexos.

“Esse profissional ainda não é compreendido, ainda é quase invisível, mesmo sendo  profissional criativo, que movimenta grandes cifras em recursos públicos e privados, mesmo sendo desafiado a atuar em um cenário cada vez mais complexo da economia criativa. É todo um grande setor da economia, com fontes de renda, de desenvolvimento, que se baseia em um profissional que ainda não tem formação definida nem a devida visibilidade”, enfatiza Rachel, indicando que o livro lança luz sobre esse profissional, sobre como ele se formou na prática e sobre a forma como interfere no universo simbólico da sociedade, sobre os desafios que estão postos para ele e para a própria engrenagem da produção, do marketing cultural, da política cultural, da economia criativa no Brasil. A obra também traz um estudo das políticas públicas de cultura nos últimos 20 anos e de sua relação com a atividade do produtor cultural.

Da história ao presente: três gerações de produtores

Reconstituindo a trajetória da produção cultural no País, Rachel Gadelha, também produtora cultural responsável por eventos como o Festival Jazz & Blues em Guaramiranga e Fortaleza, um “case” de sucesso que se tornou referência internacional e a levou a dar palestras em quase todos os estados brasileiros, situa a atuação desse personagem e sua ligação com o conceito dominante na política cultural de cada época.

“Entrevistamos três gerações de produtores culturais. Começando pelos “produtores-artistas”, que começaram nos anos 60, a geração que pra viver de arte tinha que fazer produção, mas não tinha a produção cultural como atividade profissional”, indica Rachel Gadelha.

“Depois veio a geração dos ‘produtores-empreendedores’, durante os governos FHC e Tasso, de pessoas que, assim como eu, começaram na atividade com o início das leis de incentivo à cultura no Ceará e no Brasil, decifrando essas leis e vislumbrando a possibilidade de viver de produção. É quando as pessoas entram nessa área sem ser artistas. Predominava, na política pública, a visão da cultura como um grande negócio, de grandes projetos, grandes empreendimentos, que tinham que ser  midiáticos, atrair o patrocinador. Grandes projetos culturais no Ceará aconteceram nesse período, e essa geração até hoje está em atividade”, situa a pesquisadora.

“Em seguida veio a terceira geração, já no governo Lula, com outro regime de valores: cultura como cidadania, como bem social, a visão do direito à cultura, da cidadania cultural. Os projetos passaram a ter em destaque essa faceta de responsabilidade social, inclusão, acessibilidade. Esses produtores já surgem em uma nova geração, vindo dos movimentos sociais, universitários, com uma compreensão mais social, conjuntural, dos projetos. Surge então a geração dos ‘produtores-gestores'”, sistematiza.  “E aí começam a coexistir no campo da cultura esses três perfis, disputando projetos, captação de recursos… No livro analisamos essa coexistência e essa competição entre eles”.

Herança de Sísifo

Através das entrevistas com 20 produtores que dão depoimentos impressionantes sobre a atividade – e sobre o alto preço social, pessoal e até emocional que ela cobra – e de reflexões reforçadas por conceitos e categorias definidas pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, o livro”Produção Cultural” compõe também um painel da realidade socioeconômica desses profissionais, evidenciando os desafios por eles enfrentados e abrindo o debate sobre as consequências desse contexto para a própria produção cultural e para as políticas culturais como um todo.

“Os produtores acabam tendo que viabilizar seus projetos e se viabilizar, às vezes de forma precária. São obrigados a estar o tempo todo fazendo novos projetos, e não ativam outras instâncias do sistema cultural, como a circulação, o pensamento, a pesquisa, a elaboração. Os projetos não têm sequer tempo de maturar; já é preciso fazer outro, em uma cultura de dependência das leis de incentivo, dos editais, das empresas. Por mais bem-sucedido que seja, todo ano o projeto volta à estaca zero, começa a captar recurso de novo, se quiser continuar existindo”, diagnostica Rachel Gadelha.

Como na metáfora mitológica de Sísifo, há sempre uma pedra a carregar ladeira acima, para depois recomeçar tudo de novo. Há pouco tempo e espaço para refletir sobre a própria atividade e para projetar um futuro mais sustentável e menos dependente. “O produtor está tão focado na sua sobrevivência e na sobrevivência dos seus projetos, que enquanto não romper isso aí e não olhar pro amanhã, um pouco acima do muro, não vai conseguir sair dessa roda”.

Não por acaso, vários dos depoimentos dos produtores, colhidos pela pesquisadora, revelam sensação de esgotamento de modelo, de busca de alternativas e de necessidade de compreensão de como se chegou ao cenário atual e de para onde a atividade caminha. “Essa inquietude acabou sendo a causa da própria pesquisa que gerou este livro. Sou fruto disso tudo, vivi tudo isso que retratei. Sou formada em Antropologia e me tornei produtora cultural, trabalhando nessa roda-viva… Em um certo momento o cenário estava tão complexo que senti necessidade de refletir sobre tudo aquilo que vivi, tudo que aconteceu nesses últimos 20 anos, de muitas mudanças na produção cultural, no Ceará e no Brasil”.

Dando voz aos produtores

A necessidade de dar voz aos produtores, para que a pesquisa se tornasse capaz de destacar grandes experiências, conquistas e também paradoxos da produção cultural no Ceará, ao longo de décadas de atividades, foi outro marco impulsionador do trabalho. Ironicamente, para que esses produtores pudessem sair do anonimato e gerar um registro de suas experiências e reflexões, os depoimentos tiveram que ser sistematizados de forma anônima no livro, para assegurar independência no discurso e deixar os produtores à vontade para expor suas ideias. O fato ressalta o contexto de interdependência social e estatal, em que a produção cultural depende de “bom relacionamento” com empresas e com o Poder Público, para se viabilizar.

“Se não fosse dessa forma, os produtores não teriam coragem de falar realmente sobre o que queríamos pesquisar, de colocar o dedo em várias feridas”, justifica Rachel Gadelha. “Esse é um resquício da ‘cultura de balcão’, dos tempos em que o produtor e o artista eram literalmente empregados do Estado. Essa sensação de dependência e de necessidade de manter um bom diálogo com os gestores do momento, em contraste com o princípio da impessoalidade da administração pública, permanece para a produção cultural até hoje”, vaticina a pesquisadora.

“O produtor foi ganhando mais e mais tarefas e atribuições, vendo sua atividade se tornar cada vez mais complexa, tendo que aprender a lidar com leis de incentivo, relatórios, prestações de contas, editais, mecanismos de controle, mas quase sempre mantendo um viés de dependência do Estado. A gente tem todo um cenário, com editais, leis, mas continua refém de uma tradição de cultura de balcão”.

SERVIÇO:

“Produção Cultural – Conformações, configurações e paradoxos”.Livro da pesquisadora, antropóloga e produtora cultural Rachel Gadelha.

Lançamento nesta sexta-feira, dia 18 de setembro, às 19h, no auditório da Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010, Piso 1, Loja 8, Aldeota), com debate entre a autora e o orientador da pesquisa, professor Alexandre Barbalho. Publicação: Editora Armazém da Cultura. Mais informações: www.armazemcultura.com.br.