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Atendimento humanizado fortalece relação médico e paciente no Hemoce

17 de dezembro de 2018 - 13:53 # # # #

Jeorge Farias Arte
Natássya Cybelly e Helga Rackel - Assessoria de Comunicação da Sesa

A rotina da hematologista Rosângela Albuquerque é traçada pela arte do cuidar das pessoas. Em seus 63 anos de idade, mais da metade do seu tempo de vida, 35 anos, foi dedicada a atender pacientes com coagulopatias e hemoglobinopatias do sangue no Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará, Hemoce, da rede pública do Governo do Ceará. A médica que foi pioneira na área hematológica do hemocentro tem uma trajetória de desafios, conquistas e não abre mão de oferecer um atendimento humanizado aos pacientes.

Logo pela manhã, antes das 7h, a “doutora Rosângela” chega ao Hemoce para receber os pacientes com hemofilia e coagulopatias raras. Alguns, ela pegou no colo quando ainda eram crianças e até hoje acompanha o crescimento deles. “Tem paciente aqui que iniciou o tratamento com menos de dois anos de idade e hoje eu vejo adulto, formado, bem de saúde, é gratificante cuidar de todos eles, a gente cria um vínculo de afeto. Eu exerço a minha profissão com prazer, porque eu gosto de ser médica”, afirma.

Durante a entrevista, a hematologista, é surpreendida no corredor do Hemoce por uma antiga paciente, que calorosamente a chama pelo nome e lhe dá um abraço afetuoso. A paciente é a dona de casa Maria do Socorro Antunes. Ela foi diagnosticada com a doença de von Willebrand, um distúrbio de coagulação que causa hemorragias. Maria do Socorro conta que foi uma das primeiras pacientes de Rosângela e relembra com carinho alguns momentos. “Quando eu encontro a doutora, tenho que ir falar com ela, abraçar, conversar, é só alegria”, conta com entusiasmo.

Hoje a paciente não está mais sob o atendimento da hematologista, mas o vínculo de afeto permanece. “Pra mim, essa relação é como se fosse de uma filha que tem a segurança de uma mãe, porque inúmeras vezes eu cheguei aqui nervosa, aflita e ela me acalmava, me acolhia de um jeito tão materno que sempre me tranquilizava. Quantas e quantas vezes terminava a consulta e ela só me deixava sair depois de fazer um lanchinho? Isso é carinho e carinho cabe em todo lugar, né?”, diz Maria do Socorro.

Vocação

Nos seus 35 anos de atuação profissional, a médica foi pioneira na área hematológica do Hemoce. Na década de 80, o serviço de hematologia no Ceará começava a dar seus primeiros passos. Os pacientes com coagulopatias como, por exemplo, a hemofilia, eram atendidos no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Rosângela era residente de hematologia no HUWC. Quando o Hemoce iniciou as atividades em 1983, a médica foi convidada pelo diretor do hemocentro para implantar o serviço de hematologia na unidade. “Surgiu a necessidade de ampliar a hematologia em parceria com o HUWC. Foi ali que eu me encontrei na medicina, porque eu tive a oportunidade de atender olhando no olho do paciente, cuidando e fazendo o acompanhamento individualizado”, relembra.

Ainda com poucos profissionais na área, Rosângela se desdobrava para realizar o trabalho coletivo, sozinha. “No começo, eu atendia o paciente, colhia sangue para os exames, fazia os testes laboratoriais e voltava para o consultório. Era uma loucura, mas necessário para fazer tudo dar certo”, explica. Com um curso de especialização em hematologia oferecido ainda nos anos 80, pelo Hemoce e HUWC, novos profissionais da saúde foram capacitados para a especialidade.

Atualmente, o ambulatório de coagulopatias e hemoglobinopatias do Hemoce, em Fortaleza, atende por mês cerca de 430 pacientes com uma equipe multidisciplinar entre hematologistas, enfermeiros, assistente social, fisioterapeuta, odontologista e psicólogo. “Ver a evolução de um serviço público que você ajudou a iniciar é uma sensação indescritível, porque além de oferecer a assistência, a gente pode repassar para a nova geração alguns valores que são essenciais na medicina, porque é claro que o papel do médico é tratar, cuidar das pessoas. Mas quando, além disso, tem a relação de carinho, respeito, de entender o sofrimento do paciente com empatia, é um sentimento de realização por saber que estou cumprido o meu papel com êxito e deixando esse legado para os novos especialistas que já estão dando continuidade ao trabalho”, ressalta.

Quando questionada se ela pensa em se aposentar ou deixar de clinicar, ela é enfática: “Você acha que quem lutou tanto para ver um serviço crescer, vai deixar morrer? Nem pensar!”, responde sorrindo. “Mas o que eu posso dizer hoje é que estou bem satisfeita e realizada”, conclui.

Caminhos do Afeto

Os encontros podem trazer consigo a beleza do afeto, de novos relacionamentos, a criação e o fortalecimento de vínculos. Na rotina de uma unidade hospitalar, caminhos se cruzam, histórias diferentes se encontram, pessoas se conhecem, mudanças acontecem. E é esse intercâmbio de ideias, culturas e trocas de experiências, que cada história se redesenha em seu papel de cuidados, planos e sonhos. Uma vida, mesmo que sutilmente, pode afetar outra para sempre. Caminhos do Afeto é uma série de reportagens da Secretaria da Saúde do Ceará. Até 21 de dezembro, histórias de profissionais e usuários da rede pública de saúde do Ceará serão contadas sob diferentes perspectivas.