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Com apoio da Funcap, pesquisadores publicam artigo sobre reprodução do sapinho maranguapense em periódico internacional

22 de dezembro de 2020 - 11:03 # # # #

Ascom Funcap - Texto
Daniel Cassiano - Fotos

O Adelophryne maranguapensis, conhecido como sapinho maranguapense, é um pequeno anfíbio que atinge apenas dois centímetros de comprimento e é encontrado somente nas partes mais altas da Serra de Maranguape, no Ceará. Um estudo liderado pelo professor Daniel Cassiano Lima, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), em parceria com pesquisadores de Pernambuco e do Rio Grande do Sul, forneceu novas informações sobre os modos reprodutivos desse animal.

A pesquisa teve origem na tese de doutorado de Daniel, que contou com bolsa concedida pela Funcap. No fim de novembro, os resultados foram publicados no artigo “Reproductive biology of direct developing and threatened frog Adelophryne maranguapensis (Anura, Eleutherodactylidae) reveals a cryptic reproductive mode for anurans and the first record of parental care for the genus”, no Journal of Natural History.

O sapinho é classificado como vulnerável na Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, e constitui uma das espécies-alvo do Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação da Herpetofauna do Nordeste, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

No artigo são apresentados dados relevantes para a conservação da espécie, como as evidências de que a reprodução ocorre durante fases chuvosas (com precipitações acima de 150 mm), além do registro, feito pela primeira vez, de cuidado parental. As fêmeas permanecem assentadas praticamente imóveis sobre os ovos, até que todos eles tenham desenvolvido uma camada gel, com compostos higroscópicos (que mantém a umidade dos ovos, retirando a umidade do ar) e compostos antimicrobianos (uma defesa contra fungos e bactérias do ambiente), entre outros componentes.

Segundo o professor Daniel, a camada gel é algo comum a outras espécies de anfíbios, mas normalmente é pouco espessa para as espécies que depositam os ovos dentro da água. “No caso das espécies que depositam ovos em ambientes fora da água, como o Adelophryne maranguapensis, a camada é bem mais desenvolvida”, explica o pesquisador. De acordo com ele, existem registros de cuidado parental em outras espécies de anuros (rãs, sapos e pererecas) que incluem cuidados com as desovas (assistência e/ou transporte de ovos), larvas (assistência e/ou transporte de girinos), sapinhos recém-eclodidos (assistência e/ou transporte dos sapinhos), e, mais raro, a deglutição de larvas (quando o adulto guarda as larvas no saco vocal ou mesmo em partes especiais do estômago até que estejam prontas para a vida livre).

Durante a pesquisa de campo, observou-se também que o sapinho maranguapense não é seletivo com relação à bromélia na qual se reproduz, fazendo uso das espécies mais abundantes. Apesar de os estudos sobre a associação entre anfíbios e bromélias no Brasil ainda serem incipientes, há registros de outras espécies não locais de anfíbios colocando ovos em bromélias, mas com modos reprodutivos diferentes. “São anfíbios que colocam ovos na água das bromélias, dos quais eclodem girinos que passam pela metamorfose. Há também o relato de espécies com desenvolvimento direto, assim como ocorre com o sapinho maranguapense, entretanto essas outras espécies também depositam seus ovos em outras partes de plantas, e até mesmo no solo, e não exclusivamente em bromélias”, esclarece o pesquisador.

As áreas de estudo se concentraram nas regiões do Riacho Beija-Flor e do Pico da Rajada, com base em observações feitas pelo pesquisador durante a graduação e o mestrado. “Essas duas áreas são mais altas, mais preservadas, e mais úmidas, se comparadas a outros pontos onde a espécie também foi encontrada. Talvez por isso e pela grande quantidade de bromélias, esses dois locais tinham maior densidade populacional do sapinho”, comenta Daniel.

As observações foram realizadas de 2010 a 2012 e o material coletado durante o período segue rendendo informações para publicações. Atualmente, Daniel é pesquisador colaborador do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, vinculado à Uece, e coordenador do táxon de anfíbios na elaboração do Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas do Ceará, ambas iniciativas apoiadas pela Funcap.