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Autismo: manter rotina na pandemia ajuda na organização emocional

3 de abril de 2021 - 09:13 # # # #

Milena Fernandes e Eduarda Talicy - Ascom do HSM e Hias - Texto
Gabriel Caúla - Artes gráficas

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), é celebrado neste 2 de abril. A data reforça a importância de ficar atento aos primeiros sintomas para que o diagnóstico seja realizado o mais cedo possível. Em Fortaleza, o Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), atende atualmente cerca de 80 crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma disfunção neurológica caracterizada pelo comprometimento da interação social, comunicação verbal e não verbal, comportamento restrito e repetitivo. Especialistas da Rede Sesa ressaltam a importância dos cuidados, principalmente durante a pandemia de Covid-19.

No Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), é feito o diagnóstico clínico, tratamento e também orientações sobre as terapias. O neurogeneticista da unidade, André Luiz Pessoa, considera que a data é importante, principalmente, para a conscientização social em torno dos conhecimentos sobre o TEA. “A OMS preconiza em torno de 1% da população diagnosticada com autismo, mas estudos mais recentes têm colocado essa prevalência mais alta, em torno de 2%, ou seja, a gente tem uma população mundial muito grande de pessoas com autismo”, explica.

Segundo ele, o TEA é um conjunto de condições que têm em comum o déficit de comunicação social, verbal e não verbal e o comportamento estereotipado. “É muito importante que toda a sociedade conheça os sinais precoces para que a criança tenha um tratamento multidisciplinar. A intervenção terapêutica precoce modifica muito o prognóstico dessa criança. Cada caso é um caso diferente, mas, em geral, o acompanhamento profissional garante uma melhora bem importante”, reforça.

A médica psiquiatra do HSM, Denise Evangelista, conta que são atendidas atualmente 80 crianças e adolescentes diagnosticados com autismo no Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência (Naia) do hospital. A especialista ressalta a importância de buscar o tratamento logo que o diagnóstico seja confirmado. E explica que o TEA é uma condição neurobiológica de origem genética, que pode sofrer influência de fatores ambientais, trazendo prejuízos ao bebê em desenvolvimento durante a gravidez. “Sendo assim, mitos como vacinação, métodos de criação ou mães que demonstram pouco afeto não são fatores que tenham correlação com o autismo”, diz Denise.

A especialista enfatiza que qualquer sintoma ou comportamento que traz prejuízo para a vida familiar, escolar ou social de uma pessoa deve ser investigado. “Se traz consequências negativas, como afastar amigos, estresse em casa, deve ser cuidado. Não existem medicações específicas para o autismo, mas podem-se usar algumas medicações para tratar sintomas e comportamentos que estejam atrapalhando o funcionamento global do indivíduo, com isso garantindo sua adesão às terapias multidisciplinares, diminuindo seu sofrimento e melhorando sua qualidade de vida e também de sua família”, frisa a médica.

A psicóloga Marleide Oliveira, que trabalha no ambulatório, explica que o diagnóstico realizado no Naia é clínico, feito por anamnese (uma entrevista conduzida pelos profissionais especializados) e por meio da observação. “O acompanhamento psicológico tem um papel essencial, podendo auxiliar no desenvolvimento social, nos estímulos das funções cognitivas (atenção, percepção e memória), na comunicação e nas emoções, sendo utilizados como recursos terapêuticos os instrumentos lúdicos (brinquedos e jogos) para o estímulo de habilidades variadas e melhora na qualidade das interações sociais e comportamentais”.

Pandemia

Além das crianças e dos adolescentes, o tratamento realizado no HSM também é estendido aos pais. “Eles são acolhidos e recebem apoio para que possam conviver melhor em família, ajudando na evolução do filho”, conta Marleide. Neste momento de pandemia, os atendimentos estão sendo realizados de forma virtual para os casos mais leves e presenciais em casos mais graves, como forma de ajudar a se manterem emocionalmente organizados e para que não haja prejuízo em suas atividades diárias.

“O isolamento social é uma condição que gera ansiedade e instabilidade emocional em todas as pessoas. Por isso, orientamos que, neste momento, é muito importante desenvolver estratégias para preencher os horários das crianças e adolescentes autistas, com rotinas já adotadas, como a manutenção de horários para acordar, tomar banho, lanchar, brincar, ver televisão, fazer tarefas escolares e demais atividades domésticas”, orienta.

A psicóloga reforça, ainda, a importância de incentivar a autonomia da criança, dando opções de atividades. “Utilize perguntas que a criança já consiga entender, questionando o que ela deseja fazer e criando novas rotinas adaptadas ao ambiente domiciliar, com pinturas, artesanato, dança, exercícios físicos, quebra-cabeça e culinária”, sugere.

A dona de casa Maria José Souza, de 52 anos, mãe de um filho autista, conta que desde os quatro anos a criança é acompanhada pelos profissionais do HSM. “No começo, tudo era muito difícil. Ele se irritava constantemente, mas agora, aos nove anos, ele está bem mais calmo, com um comportamento controlado. O tratamento que nós recebemos no Hospital de Saúde Mental tem sido essencial para a melhora dele. Eu também sempre recebi muito apoio e suporte para lidar com a situação do meu filho”.

Serviço

Para ser atendido pelo Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência (Naia) do HSM e pelo Hias, é necessário o encaminhamento pelo posto de saúde e pela Central de Regulação da Secretaria da Saúde do Estado.