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Mães e profissionais do Samu: a urgência do trabalho e da vida familiar em meio à pandemia

7 de maio de 2021 - 15:20 # # # # # #

Suzana Mont'Alverne - Ascom da Sesa - Texto

Técnica de enfermagem e condutora do Samu, Maria das Dores Ferreira conta que o distanciamento da filha e do marido em meio à pandemia foi a decisão mais difícil a ser tomada

A rotina de mães e profissionais de saúde, com jornadas duplas e por vezes triplas, pode ser cruel. E quando soma-se a isso o exercício da profissão em meio à pandemia de Covid-19? Medo, insegurança e esperança se confundem diariamente. O cuidado para salvar a vida dos filhos e netos de outras pessoas, por exemplo, esbarra na distância dos próprios filhos, que ficam em casa torcendo para que as mães também sejam salvas.

Para as profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192 Ceará), também mães, o diálogo entre maternidade e trabalho é duro. Mas algumas afirmam valer a pena. Outras só aguardam tudo passar para fazer uma grande viagem com quem teve de se afastar para garantir a segurança em meio ao cenário pandêmico. E tem quem prefira olhar para quem (re)nasce, seja driblando a doença ou vindo ao mundo dentro de uma ambulância.

Família separada
Condutora de ambulância há um ano, a técnica de enfermagem Maria das Dores Ferreira, de 45 anos, mudou completamente sua rotina desde o início da pandemia. O distanciamento da filha e do marido foi, segundo ela, a decisão mais difícil a ser tomada. “Eu fiquei com muito medo de levar a doença para a minha casa, por isso, optamos por nos distanciar. Meu marido mora no sítio, minha filha, na avó, e eu fiquei na nossa casa. A saudade é enorme e doí muito, mas o pavor de contaminá-los foi maior”.

Dora, como gosta de ser chamada, diz que a dor aumenta quando sua filha, Yohanne Reis, de 14 anos, pede que ela pare de trabalhar. “Ela se preocupa comigo. Acha a profissão arriscada, e é realmente bastante desafiadora, por ser mulher em uma profissão predominantemente masculina, mas é extremamente gratificante saber que, junto com uma equipe, eu salvei uma vida”.

Em todo plantão há que se vencer a pressão mental e a exaustão física. No caso de Dora, devido ao trabalho com equipamentos de proteção, o esgotamento é maior. “Só quem está dentro sabe o que temos que vencer todos os dias”, compartilha. A técnica de enfermagem afirma não poder fraquejar. “Assumo meu plantão sem saber se cumprirei apenas as minhas horas ou se terei que dobrar para cobrir um colega que infelizmente adoeceu. É bem difícil”.

Mesmo diante de tantas dificuldades, Dora diz não perder a esperança em dias melhores. “É com ela que me levanto todos os dias. Nós vamos vencer”. E faz um apelo às pessoas: “Só sairemos dessa situação com a cooperação de todos. Precisamos nos unir para salvar os seus e os meus familiares. Usem máscara e, se puderem, fiquem em casa”.

‘Famílias e filhos além dos nossos’

“Exercer a enfermagem, ser uma profissional da saúde e mãe, principalmente no Samu e em tempo de pandemia, não é nada fácil. Quando entramos nesse serviço, descobrimos outras famílias e filhos além dos nossos. Atendemos filhos de outras mães que muitas vezes levam mais atenção e cuidados que os nossos”, conta Francisca Liliane Lucas Chaves, enfermeira do Samu.

Liliane lembra que, quando crianças, os filhos não tinham total compreensão da sua rotina, já que à época, em seu tempo livre, a dedicação aos pequenos era “muito forte”. Mas à medida que foram crescendo, apesar da admiração, Abell e Davih, de 26 e 20 anos, respectivamente, reclamavam da ausência. “Ouvi muitas cobranças veladas e gritadas por eles. Estou no Samu desde o começo e, hoje, meus pequenos são grandes. Me entendem melhor hoje, mas passamos por poucas e boas. Era muito difícil ter tempo para o outro e não para os meus”.

Quando a pandemia de Covid-19 foi decretada, no início de 2020, a preocupação aumentou. Dela com os filhos e ao contrário. “Estou na linha de frente, lido diariamente com a doença. Tenho redobrado os cuidados, preciso combater o medo de levar o vírus para casa o tempo todo”.

Enfermeira do Samu, Liliane Chaves realizou um parto, no primeiro dia de 2021, dentro da ambulância

A enfermeira já teve Covid-19 e relata que teve medo pelo que vê todos os dias. “Perdi colegas de profissão e pacientes. Eu vejo o medo nos olhos dos meus filhos quando sabem da morte de alguém próximo a mim. Eu venci essa batalha, mas ainda tenho que vencer todos os dias o medo de estar cara a cara com essa doença”.

Liliane aguarda ansiosa o fim da pandemia para ter tempo com a família. Ela renova as esperanças a cada nova vida que vê nascer – como o parto que ajudou a realizar em sua primeira ocorrência deste ano. “Fomos acionados e, em deslocamento, ainda na ambulância, nasceu uma linda menina, de parto normal, na primeira hora de 2021. Sei que vamos vencer essa”, rememora.

Quando a pandemia acabar, ela aponta seu primeiro desejo. “Quero dedicar todo o meu tempo para eles (filhos). Vamos fazer uma viagem, nos reunir nos almoços de domingos e ter a liberdade de passeios tranquilos”.

Trabalhando com carinho

Raimunda Araújo, de 68 anos, é técnica de enfermagem e atua há 13 anos no setor de dispensação de material do Samu. Tratada como “mãezinha” pelos colegas, ela destaca que o afeto deixa o trabalho mais leve.

“Gosto de tratar as pessoas com carinho. É o meu jeito. Todos me chamam de mãezinha e eu só tenho filhos lindos”, orgulha-se. Mãe de Flávio Augusto, de 42 anos, ela conta que a maternidade é a sua melhor versão. “Sou muito grata por ser mãe. Tenho um filho muito atencioso e que cuida muito de mim e da nossa casa”.

Técnica de enfermagem do Samu, Raimunda Araújo afirma que a maternidade é sua melhor versão

Já vacinada com as duas doses, a profissional não baixa a guarda e segue se protegendo contra a Covid-19. “Eu me protejo. Tenho medo pela idade. E aconselho a todos que já estão vacinados a seguirem com os cuidados, por eles e pelos outros. Precisamos pensar no bem-estar do próximo”, ensina.

Raimunda afirma ver cansaço nos olhos dos profissionais que vão à sede do Samu buscar material de trabalho. “É muita responsabilidade que essas pessoas têm. Lidam com vidas. E eu me sinto muito feliz de poder garantir, de alguma forma, a segurança deles, com os equipamentos de proteção. Meu trabalho é muito importante”, entende.