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Especialistas do HSM orientam sobre como lidar com o luto na pandemia

9 de junho de 2021 - 16:21 # # # # # #

Milena Fernandes - Ascom do HSM - Texto
Brauliana Barbosa - Arte gráfica

Há mais de um ano, o mundo vem sofrendo diariamente a dor da perda de familiares e amigos, vítimas da Covid-19. Esse foi o caso da Regina Cláudia Rodrigues, de 50 anos, que lida com o luto pela morte do filho de 21 anos. Ele faleceu em setembro do ano passado, vítima do coronavírus. Regina conta que o filho passou quatro meses internado. “Eu acompanhei meu filho durante todo o tempo de internamento. Ele precisou ficar na UTI, intubado e muito debilitado, mas eu acreditava que iria se recuperar”, afirma a técnica de laboratório.

O processo de luto tem sido doloroso e foi necessário buscar ajuda. “No início, eu paralisei porque eu jamais pensei que passaria por isso. Foi muito difícil, fiquei morando sozinha, pois meu filho era minha única companhia. Tive vontade de morrer, não conseguia dormir e chorava muito. Precisei de apoio psicológico para poder me fortalecer. Hoje, aos nove meses de luto, ainda choro bastante, a dor permanece forte, sinto uma saudades enorme, porém estou mais conformada, buscando me fortalecer espiritualmente para continuar minha missão”, diz Regina.

Luto normal x luto patológico

O psiquiatra e diretor clínico do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Helder Gomes, explica que o luto é uma resposta emocional encontrada quando existe uma perda significativa para o indivíduo. O tempo de duração do luto é particular. Alguns podem demorar meses, outros anos. Mas considera-se que o primeiro ano seja o mais difícil. “Após a morte de um familiar ou de um amigo são normais os sentimentos de angústia, tristeza, choro frequente, dificuldade para adormecer, falta de apetite, mal estar e até tremores pelo corpo. A pessoa que vai melhorando desses sintomas ao longo do primeiro ano tende a ter um luto normal”, pontua.

Existem alguns estágios pelos quais o indivíduo que está passando pelo período de luto pode experimentar. O primeiro deles é a negação. No segundo estágio podem surgir sentimentos de raiva, revolta e ressentimentos. O terceiro é a barganha, onde a pessoa começa a negociar essa dor, pensando o que poderia ter sido feito diferente e o que foi cometido de errado em relação às situações do passado. O estágio seguinte seria a depressão, com uma tristeza mais intensa, angústia e choro. O quinto estágio, quando as coisas começam a caminhar de forma mais tranquila, é a aceitação, trazendo um novo significado tanto para a perda quanto para a sua vida futura.

Nesse período de infecção por Covid-19, onde a recomendação é que o paciente permaneça internado sem acompanhante e que os velórios e sepultamentos sejam limitados a uma quantidade menor de pessoas, muitos familiares não estão conseguindo materializar a perda de forma adequada. “Justamente por esse processo não ser vivenciado de uma forma mais próxima, pode ocorrer um luto patológico, quando a pessoa enlutada evolui com sintomas de ideação suicida, discurso que deveria ter morrido no lugar daquela que partiu, pensando que seria melhor morrer para encontrar-se com o familiar falecido. Esses sintomas, quando não tratados, podem piorar com o tempo, comprometendo a qualidade de vida da pessoa”, ressalta o psiquiatra.

Luto precisa ser vivenciado

Para melhorar os sintomas do luto, uma das principais indicações é aguardar o tempo. “Quanto mais o tempo passa, os sentimentos que eram negativos vão se tornando positivos e as lembranças boas da pessoa falecida tornam-se a principal condição futura. Diferente do luto patológico, em que esses sentimentos depreciativos continuam muito fortes ao longo do tempo”.

O especialista recomenda que todas as pessoas que tenham perdido alguém próximo neste período de pandemia possam passar por terapia com psicólogo para conversar sobre essa perda, sobre a relação familiar, as estratégias que serão utilizadas para enfrentar esse momento difícil e para que haja entendimento que o período de luto é normal e que precisa ser vivenciado por alguém que teve uma perda importante nos últimos dias.

“Quando há o luto patológico, com sintomas mais graves e mais prolongados, existe a necessidade do paciente ser assistido por uma equipe de saúde mental, composta por psiquiatra, psicólogo e terapeuta ocupacional. Pode ser necessário o uso de antidepressivos para que haja o restabelecimento da saúde mental de forma mais rápida e com mais qualidade de vida”, frisa Gomes.

Plantão Psicológico

O Hospital de Saúde Mental oferece um serviço de Plantão Psicológico por demanda espontânea para as pessoas que estão experimentando períodos de perdas recentes e, principalmente, para os que estão vivenciando o luto patológico.

Plantão Psicológico do HSM atende pessoas que estão experimentando períodos de perdas recentes

A psicóloga Clarisse Missiê, que atua nesse serviço, observa que muitas pessoas costumam procurar o atendimento nos primeiros dias do luto. “O atendimento é realizado com psicoterapia breve focal, ou seja, nós focamos na dor mais emergente, como o luto, por exemplo, acolhendo o paciente com intervenções na escuta terapêutica. Oferecemos ainda mais dois retornos e, ao término do processo, se houver necessidade encaminhamos o paciente para continuidade do tratamento em outras unidades de atendimento”, frisa Clarisse.

Acolhida

A psicóloga orienta que os familiares e amigos também podem contribuir e ajudar o enlutado com uma acolhida, afago e companhia. “Quando estamos diante de um enlutado devemos ter muito cuidado com as palavras. “É importante deixar a pessoa chorar, vivenciar a dor, soltar as emoções, pois aquilo que fica guardado, reservado no inconsciente, pode trazer um sofrimento muito maior posteriormente”, indica.

Serviço

Plantão Psicológico do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto
Atendimento: segunda a sexta-feira, das 13h às 18h
Endereço: Rua Vicente Nobre Macêdo, s/n – Messejana, Fortaleza