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Especial Virando o Jogo #03 | A menina que descobriu um novo tempo

8 de fevereiro de 2022 - 15:35 # # # #

Ascom Gabinete da Vicegovernadoria

Cadeiras em círculo, olhos colados no projetor e certa penumbra simulavam um clima de cinema no amplo salão de entrada da biblioteca Cristina Poeta, no bairro Autran Nunes. Era mais uma tarde de formação profissional do projeto Virando o Jogo e cerca de 20 jovens do curso de Assistente Administrativo estavam diante do filme “O Menino que descobriu o vento”, uma produção da Netflix, reunindo impressões para debater coletivamente sobre resiliência e superação.

Na ficção, o garoto que vê a família passar por severas dificuldades financeiras e por isso já não pode mais frequentar a escola, apesar de sua flagrante e irrefreável paixão pela Ciência, vai então recorrer à imaginação e à própria força de vontade para inventar um moinho de vento capaz de garantir a sobrevivência de toda uma comunidade rural socioeconomicamente vulnerável. Seu prêmio pelo feito? Voltar a estudar e, através do conhecimento, seguir encontrando soluções para problemas reais.

Oportuna ferramenta. Trama mais do que apropriada para colocar à prova um dos principais objetivos do projeto Virando o Jogo, voltado à capacitação profissional e reinserção escolar de jovens das periferias que, por força maior e muitas vezes contra a sua própria vontade, foram levados a suspender ou abandonar os estudos, ao mesmo tempo em que passaram a buscar, na cara e na coragem, suas primeiras oportunidades no mercado de trabalho, enfrentando com sangue no olho uma luta desigual pela sobrevivência familiar.

Aos 20 anos, Melissa dos Santos Maia diz muito sobre resiliência, embora só tenha aprendido o significado da palavra naquela tarde de formação: “com 12 anos me juntei com meu namorado porque já não aguentava mais morar com minha mãe, que é dependente química. Mas ele morreu pouco tempo depois, vítima do tráfico. Fui passar um tempo com uma tia e uma prima até que conheci meu atual companheiro. Engravidei com 15 anos e tive com 16 o Tomas Rafael. Aí tive que abandonar os estudos e só voltei recente por causa do projeto Virando o Jogo, que facilita e incentiva a gente a voltar para a escola. Agora, vou concluir o Ensino Médio e quero fazer o Supletivo para começar logo a trabalhar na área de Administração ou como Jovem Aprendiz, se tiver chance”.

O esforço é para dar ao filho o direito à infância feliz que ela não teve. Mas também renovar as esperanças para construir uma casa nova e ter seu próprio negócio junto com o atual companheiro, que trabalha com vendas avulsas, mas planeja abrir uma pizzaria. “Tenho aprendido muito com o projeto sobre marketing, essa parte de organizar documentação e como trabalhar em equipe também. Sei que depois dessa formação vou conseguir emprego na área e quando acontecer quero fazer o melhor para que minha nova família não passe pelo que passei. Acho que vai ser um novo tempo daqui pra frente e meu menino vai ter orgulho de mim”, diz, lacrimejando, a jovem ruiva que ainda traz o nome do primeiro namorado tatuado no braço.

Um “tapa” no visual

Irmão e irmã lado a lado em sala de aula, vibrando juntos com os ensinamentos e descobertas nascidas do curso de maquiagem escolhido por ambos na fase de formação profissional do projeto Virando o Jogo. Adrielle e Adriel Freitas dos Santos vieram do bairro Bom Sucesso, são filhos de uma mãe doméstica que os criou praticamente sozinha e se orgulham em dizer que escaparam ao destino de muitos de seus amigos da vizinhança, envolvidos com drogas, alcoolismo ou tráfico. Aos 19 anos, ela terminou o Ensino Médio e hoje mora com a atual namorada, sobrevivendo à custa de “corres” avulsos. Aos 18, ele admite que durante a pandemia da Covid-19 não conseguiu acompanhar os estudos on-line e por isso interrompeu a trajetória escolar, mas não vê a hora de reativar a matrícula para também correr atrás de sua autonomia financeira.

No projeto Virando o Jogo, descobriram que conhecimento pode vir junto com prazer. “A gente sempre gostou de maquiagem, mas não levava isso à sério ou não via como profissão. Quando iniciou a formação e vimos essa opção foi uma alegria porque a gente já seguia os tutoriais do YouTube e maquiava os amigos e amigas da vizinhança. Agora a gente vem aperfeiçoando a técnica e com o dinheiro que ganhamos como ajuda de custo compramos material para maquiar e já começar a trabalhar no ramo. Nas festas de final de ano já tivemos até um bom lucro e a clientela tem elogiado. A meta agora é terminar o curso e trabalhar em domicílio, maquiando para casamentos, formaturas…”, festeja Adrielle, exibindo a coleção de vários tipos de rímel, batons e delineadores adquiridos recentemente.

Adriel sonha um sonho mais “purpurinado”. Quer ter o próprio “megaestúdio” e maquiar famosos, como Anitta e Pabllo Vittar. “É que pretendo me especializar em maquiagem artística para drag queen. Sempre tive vontade de me montar e já me montei também. Mas quero me montar mais ainda, ir fundo na criação de looks e arte drag. Eu nasci com essa orientação sexual, sempre gostei de me vestir com as roupas de minha irmã, fazia “shows” na calçada, queria ser a Beyoncé, mas só com 17 anos é que me assumi de fato em casa. Não sofri discriminação na família e acho que hoje, principalmente na área em que eu quero me profissionalizar, também não vai ser problema. Principalmente se eu me tornar um profissional reconhecido e famoso como eu serei depois desse empurrãozinho do Virando o Jogo, né?”, diverte-se o jovem que já não quer parar de estudar e se especializar em maquiagem artística.