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Especial Virando o Jogo #06 / Porque a periferia quer mais!

20 de abril de 2022 - 13:25 # # # #

Ascom ViceGov

Uma saraivada de palmas é pouco para Cícero Mário Gregório Peixoto, articulador social do projeto Virando o Jogo – Superação. Aos 31 anos, o músico percussionista e construtor de instrumentos de latas que escapou da extrema pobreza e dos meandros da criminalidade nas ruas graças a projetos sociais e ONGs como a Cia. Bate Palmas, não deixa sombra de dúvidas quanto ao poder transformador da educação associada às ações comunitárias e à valorização da cultura dos territórios.

“Eu sou filho de mãe alcoólatra que passava dois dias sem aparecer em casa e obrigava os filhos a pedirem esmola no sinal. Perambulei pelas esquinas muitos anos, apanhava dos mirins, pulava catraca, catava comida nas feiras e passei sete anos da minha vida envolvido em briga de gangue. Vi amigos morrendo e eu naquela paranoia. Com 18 anos é que comecei a me sair. Foi quando surgiu o Banco Palmas e depois a Cia. Bate Palmas e os projetos sociais no Conjunto Palmeiras. Conheci o músico Parahyba de Medeiros e o que era arte-educação. Ganhava bolsa e isso me salvou. Aprendi a tocar e fazer tudo o que era de instrumento. Voltei a estudar, fui pro Pro-Jovem Urbano, mas meu pai teve um AVC e não consegui concluir o fundamental. Cuidei dele por dez anos, até ano passado, quando morreu. E foi bem nessa época que apareceu a chance de trabalhar no projeto Virando o Jogo. Há dois anos sou articulador social e ajudo outros jovens como eu através desse trabalho de formação que consegue levar o jovem de volta para a escola e devolver a ele uma perspectiva de futuro”, atesta o também criador da banda de latas infantil Palmerê.

Pura inspiração. Com dois filhos para criar, o Cícero mestre na arte da “viração”, que antes de se integrar ao projeto Virando o Jogo organizou saraus, cineclubes, bibliotecas comunitárias e rodas de conversas no bairro onde atua, o Conjunto Palmeiras, além de ensinar e levar música aos quatro cantos do Ceará com a Cia Bate Palmas, hoje pode falar de cátedra sobre uma nova geração de políticas públicas para as juventudes decidida a enfrentar o fenômeno da violência de mãos dadas com a escola e a família, gerando não só oportunidades de trabalho mas engajamento comunitário.

“A vivência que compartilho hoje como articulador social no projeto Virando o Jogo é similar a de muitos desses jovens que antes já passaram por mim na Cia. Bate Palmas. E acho importante que isso tenha sido valorizado na própria seleção da equipe multiprofissional que trabalha junto nos territórios das periferias. Para você ter ideia, eu só tinha currículo artístico e estava até sem documentos quando me chamaram para trabalhar. Isso porque sempre fui contra o “sistema” e esse negócio de carteira assinada. Mas poder repassar pros jovens tudo o que aprendi me pareceu muito mais importante”, admite Cícero.

O articulador social sensação do Palmeiras, que também é ateu e já teve fama de mau, hoje defende a arte-educação sem titubear e segue suando a camisa para permanecer sendo exemplo de superação. Mas não sem “abrir a mente” de quem se habituou a desistir de sonhar.

“Converso sobre os problemas dessa moçada, que são os mesmos que enfrentei. Encaminho quem precisa pros psicólogos do projeto também. Na favela, a gente cresce em meio à violência e isso ferra com a cabeça da gente. Então é muito valioso ofertar atendimento psicológico, além de formar para a cidadania, o mercado de trabalho e estimular a volta à escola. Isso ajuda a criar vínculos com a família e a desenvolver um senso de coletividade. Faço essa ponte como mediador, conversando com esses jovens. Porque é difícil escapar da criminalidade vivendo em uma sociedade que só ensina o povo da favela a ser escravo e não patrão. Quero voltar a estudar também. Mas é Pedagogia, Filosofia, Ciência Tecnológicas, tudo isso me interessa. Quero também fazer cinema depois que ganhei um computador. E comecei a estudar mixagem pelo YouTube, gravar jingle e fazer a captação de áudio do CD da Cia. Bate Palmas. Pra quem só teve acesso à internet com 17 anos, tá bom, né? Mas planejo e sonho aprender muito mais”, avisa o músico e líder comunitário também preocupado com o meio-ambiente e que já abriu no quintal de casa uma loja para vender óleo de coco natural.