Centro de Convivência Antônio Diogo transforma memória da hanseníase no Ceará em cuidado e sensibilização sobre a doença

28 de janeiro de 2026 - 16:16 # # # #

Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Jessika Sampaio
Fotos: Thamires Oliveira, Odorico Moraes, Arquivo Pessoal

Sônia do Nascimento, de 63 anos, moradora do Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD), vive no local há mais de cinco décadas, onde construiu vínculos, família e rotina

“O que eu gosto mesmo, hoje em dia, é andar de bicicleta aqui dentro”, diz Sônia do Nascimento, de 63 anos, moradora do Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD). A unidade da rede da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), em Redenção, atua no cuidado, acompanhamento e reabilitação de pessoas com hanseníase e com sequelas da doença.

A bicicleta acompanha Sônia desde que chegou ao CCAD. No início, pedalava com um lenço enrolado nas mãos, tentando esconder as marcas deixadas pela hanseníase, mas nem o constrangimento a impedia de seguir em movimento, hábito que guarda até hoje. A doença, antes sem cura, hoje tem uma realidade diferente: o tratamento é gratuito, efetivo e oferecido inteiramente pelo SUS.

A bicicleta acompanha Sônia desde a infância no CCAD

Sônia vive no Centro há 53 anos, desde que chegou, ainda criança, em um período em que a hanseníase era enfrentada no Brasil por meio da internação compulsória. “No começo era tudo muito ruim, porque a gente não podia sair, não podia visitar a família”, relembra.

Fundado em 1928, o espaço, então conhecido como Leprosaria Canafístula, posteriormente denominada Colônia Antônio Diogo, foi criado em um contexto histórico em que o enfrentamento da hanseníase no Brasil se baseava na internação compulsória, política sanitária adotada nacionalmente diante da ausência de tratamento eficaz e do forte estigma associado à doença.

Ao longo das décadas seguintes, com a reorganização das políticas públicas de saúde e a criação da Secretaria da Saúde do Ceará, em 1961, o modelo assistencial passou por transformações, acompanhando a progressiva superação do isolamento como estratégia de controle.

O Centro de Convivência Antônio Diogo integra a história do enfrentamento da hanseníase no estado, do isolamento compulsório ao cuidado em rede

Hoje, o manejo da hanseníase no Ceará se baseia no diagnóstico precoce, no tratamento ambulatorial e na vigilância ativa dos casos, em uma lógica oposta à do isolamento do passado. Para o secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará, Antonio Silva Lima Neto (Tanta), a continuidade de um combate efetivo desse cenário passa, necessariamente, pela capacidade da rede de identificar os casos no tempo certo.

“A maioria dos casos de hanseníase é diagnosticada por avaliação clínica na Atenção Primária. É um diagnóstico simples, desde que o profissional esteja capacitado para reconhecer os sinais, e o tratamento é ofertado gratuitamente pelo SUS”, explica.

Hoje, Sônia não usa mais o lenço para esconder as deformidades das mãos, mas o hábito de pedalar permanece. Entre uma volta de bicicleta e outra, ela também gosta de subir em árvores para apanhar frutas e brincar com os netos que circulam pelo CCAD. “Aqui é um céu. As crianças ficam livres, correm, brincam. Eu gosto de andar, gosto de viver aqui”, diz, com a tranquilidade de quem transformou um espaço marcado pelo isolamento em território de convivência e liberdade.

Veja o depoimento de Sônia:

O Centro de Convivência Antônio Diogo

O Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD) abriga atualmente 140 moradores. Desse total, 17 são pessoas que viveram o período da internação compulsória — modelo que deixou de ser regra em 1962 — e a maioria é formada por filhos e netos daqueles que foram institucionalizados no passado e constituíram família no próprio local.

Foto aérea do CCAD

A instituição está situada em uma área de 15,4 hectares, o equivalente a cerca de 22 campos de futebol, e é composta por 65 casas distribuídas em três ruas, além de estruturas como enfermarias, campo de futebol, lanchonete e cemitério, preservando características de quando funcionava como uma pequena cidade.

Unidade mais antiga da rede da Sesa, o CCAD funciona hoje como centro de convivência, cuidado, reabilitação e preservação da memória. Segundo o diretor-geral da instituição, Francisco de Assis Duarte Guedes, o espaço também mantém sua vocação assistencial.

“Além de ser um local de moradia e convivência, o CCAD integra a rede de saúde e oferece atendimento à população, com acompanhamento clínico e suporte contínuo, por meio da regulação”, explica.

Memória não mantém a dor viva, mas impede que ela seja esquecida

O Memorial Leprosaria Canafístula, instalado no CCAD, preserva documentos, imagens e relatos que ajudam a compreender quase um século de enfrentamento da hanseníase no Ceará, reunindo memória, história e resistência

Parte da trajetória da hanseníase no Estado está preservada no Memorial Leprosaria Canafístula, instalado no próprio centro. O equipamento cultural reúne documentos, recortes de jornais, objetos e relatos que ajudam a compreender quase um século de enfrentamento da doença no Ceará, registrando tanto o impacto da internação compulsória e da separação familiar quanto as formas de resistência, sociabilidade e produção cultural construídas ao longo do tempo.

Apresentação do Boi “Xô Preconceito”, em espetáculo de reisado realizado no CCAD, como parte da programação do Janeiro Roxo. A atividade reuniu moradores, pacientes, acompanhantes e profissionais, utilizando a cultura popular como ferramenta de sensibilização, integração e enfrentamento ao estigma da hanseníase.

Para Assis Guedes, preservar essa memória também é uma forma de cuidado em saúde. “O memorial não existe para manter a dor viva, mas para impedir que ela seja esquecida. Ele contribui para a formação de profissionais mais sensíveis e atentos, além de mostrar que aqui também houve vida, cultura, família e reconstrução”, afirma. O local recebe estudantes e profissionais da área da saúde, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do respeito às pessoas acometidas pela doença.

Serviço

O Centro de Convivência também recebe estudantes e profissionais da área da saúde, contribuindo para a formação de olhares mais atentos ao diagnóstico precoce, ao cuidado integral e ao respeito às pessoas acometidas pela hanseníase.

As visitas ao Memorial Leprosaria Canafístula podem ser agendadas pela população em geral pelos telefones (85) 3332-2673 / 3332-9483 ou pelo e-mail hospitalantoniodiogo@gmail.com.

Para estudantes e profissionais da saúde, os agendamentos devem ser realizados por meio do portal da Secretaria da Saúde do Ceará, disponível no link abaixo:

A Hanseníase

A hanseníase é uma doença infecciosa de evolução lenta, causada por uma bactéria chamada Mycobacterium leprae, também conhecida como bacilo de Hansen.

Mesmo com diagnóstico e tratamento de fácil acesso que leva à cura, ainda é uma doença cercada por estigmas que dificultam o diagnóstico precoce. A médica dermatologista Priscila Trigueiro, que atua no CCAD, lembra que a enfermidade não se limita às alterações visíveis na pele. “Ela é, principalmente, uma doença neurológica. Dormência, formigamento, fisgadas, câimbras noturnas e perda de sensibilidade são sinais importantes de alerta, muitas vezes anteriores ao surgimento das manchas”, explica.

Segundo a especialista, a associação exclusiva da hanseníase a lesões cutâneas contribui para atrasos no diagnóstico. “As pessoas tendem a procurar ajuda apenas quando percebem manchas na pele, mas os sintomas neurológicos costumam aparecer antes e precisam ser valorizados”, destaca. O reconhecimento precoce desses sinais é fundamental para interromper a evolução da doença e evitar incapacidades.

Priscila Trigueiro reforça ainda que, ao contrário do que o senso comum ainda acredita, a hanseníase não exige isolamento social. “Após o início do tratamento, o risco de transmissão cai rapidamente. Não há necessidade de afastamento, nem de separar objetos de uso pessoal. O preconceito não tem base científica e acaba sendo um dos principais obstáculos para que as pessoas busquem atendimento e recebam o tratamento no tempo adequado”, pontua.

Confira mais informações no vídeo:

 

O tratamento da hanseníase é gratuito, disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e pode ser realizado de forma ambulatorial. A médica ressalta que, quando diagnosticada precocemente e tratada corretamente, a doença tem cura e permite que a pessoa mantenha sua rotina, seus vínculos familiares e sua vida social.

Centro de Referência em Dermatologia Dona Libânia (Cderm)

Fachada do Centro de Referência em Dermatologia Dona Libânia (Cderm), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará responsável pelo atendimento especializado, apoio técnico à rede e formação de profissionais no diagnóstico e acompanhamento da hanseníase no estado.

Outro equipamento da rede da Secretaria da Saúde do Ceará que atua diretamente no cuidado às pessoas com hanseníase é o Centro de Referência em Dermatologia Dona Libânia (Cderm). A unidade é referência estadual e nacional no diagnóstico e acompanhamento da doença, além de desempenhar papel estratégico na formação de profissionais, na pesquisa e no apoio técnico à rede de saúde.

A diretora técnica do Cderm, a médica dermatologista Araci Pontes, explica que o centro atua como retaguarda especializada do Sistema Único de Saúde no Ceará. “O Dona Libânia é um serviço que integra assistência, ensino e pesquisa. Aqui, além de atender os pacientes encaminhados pela rede, capacitamos profissionais e contribuímos para qualificar o diagnóstico e o manejo da hanseníase em todo o estado”, explica.

É importante lembrar que a porta de entrada para o cuidado continua sendo a unidade básica mais próxima da residência do paciente, onde a maioria dos casos pode ser identificada. O encaminhamento ao Cderm ocorre quando há necessidade de avaliação especializada, confirmação diagnóstica, manejo de reações ou prevenção de incapacidades.

Serviço

Centro de Referência em Dermatologia Dona Libânia (Cderm)
Atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com acesso por encaminhamento da rede de saúde.
Endereço: Rua Pedro I, nº 1033 – Centro, Fortaleza (CE)

Horário de funcionamento:
Segunda a quinta-feira: 7h às 17h
Sexta-feira: 7h às 16h

Importante: a unidade básica de saúde é a porta de entrada preferencial para suspeita e diagnóstico inicial da hanseníase. O Cderm atua como referência para avaliação especializada, confirmação diagnóstica, manejo de reações e prevenção de incapacidades, além de apoiar a formação de profissionais da rede.