Dragão do Mar celebra a Data Magna com experiência inédita em Realidade Aumentada

17 de março de 2026 - 14:15 # # #

Ascom Dragão do Mar - Texto
Ana Raquel - Foto

Experiência imersiva em realidade aumentada, o projeto Ventos de Liberdade foi realizado pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em parceria com o Curso de Design da UFC, Amplitude Design Urbano e Informal Design e Arquitetura, em homenagem a líderes abolicionistas e pessoas negras, escravizadas ou não, que lutaram pela abolição da escravidão. Instalado na Arena do Dragão, o totem une arte, tecnologia e memória social

O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura lança, no próximo 25 de março, o projeto Ventos de Liberdade, que une arte, tecnologia e memória na criação de um totem em Realidade Aumentada para celebrar a abolição no Ceará, tendo como guia o personagem-símbolo da luta abolicionista cearense que dá nome ao equipamento cultural: Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde.

A ação integra a programação do Centro Dragão do Mar em alusão à Data Magna do Ceará e revolve a memória da abolição da escravidão no estado, ocorrida em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea. O convite é para que visitantes acessem a experiência imersiva em Realidade Aumentada (RA), através de celulares e demais dispositivos móveis, navegando por capítulos relevantes e surpreendentes da história da abolição cearense. Em destaque, a trajetória de Chico da Matilde e de personagens de origem popular, invisibilizadas ou pouco referenciadas em documentações históricas, que foram cruciais para a conquista popular e coletiva da libertação/emancipação de pessoas escravizadas.

A partir da interface entre arte, tecnologia e memória social, o projeto amplia e atualiza o debate sobre a sociedade escravagista brasileira e seu projeto de apagamento e desumanização dos corpos negros, revelando nomes e narrativas que extrapolam mitificações da história do Ceará e do Brasil. Abrigado em um mobiliário urbano, o totem instalado ao lado da estátua do Dragão do Mar, na Arena Dragão do Mar, funcionará como portal para cenas em realidade aumentada e ferramenta interativa de educação patrimonial.

Cultura, memória e formação

Em 1881, Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, liderou a histórica greve dos jangadeiros que cruzaram os braços e bloquearam o porto de Fortaleza na então Praia do Peixe, impedindo o tráfico marítimo interprovincial de pessoas escravizadas. À época, atuava como prático-mor da barra e era dono de jangadas. Por ter conhecimento técnico, respeito e empatia junto aos praieiros, ele foi o indicado pelo negro liberto José Luiz Napoleão, líder abolicionista que já havia organizado greves anteriores, para a paralisação final e definitiva. O levante dos jangadeiros foi assistido de perto por mais de três mil pessoas e passou a mobilizar diferentes grupos e classes sociais para que, três anos depois, em 1884, o Ceará se tornasse o primeiro estado a abolir a escravidão no Brasil, quatro anos antes da Lei Áurea.

O projeto Ventos de Liberdade é uma iniciativa do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), o escritório Amplitude Design Urbano, do artista Narcélio Grud, e o escritório Informal Design e Arquitetura, de Juliana Mota. Vinculado ao Laboratório de Experiência Digital (LED/UFC), o LEDrx, coordenado pelo professor Diego Ricca, foi responsável por desenvolver as experiências narrativas e interativas em realidade aumentada, contando com a colaboração da equipe do CDMAC e de historiadores convidados na fase de pesquisa bibliográfica e entrevistas.

A equipe da Universidade Federal do Ceará foi formada majoritariamente por estudantes pretos e pardos do curso de Design da UFC, vinculados ao IAUD – Instituto de Arquitetura, Urbanismo e Design. Os participantes passaram por oficinas formativas em ilustração artística, modelagem 3D, com ferramentas como Blender, e em plataformas de realidade aumentada para web, como a 8th Wall, utilizadas na modelagem, animação e implementação das cenas e personagens virtuais. A experiência poderá ser acessada pelo celular do visitante, a partir da leitura de um QR code disponível no mobiliário urbano desenvolvido para o projeto.

Um dos diferenciais da iniciativa é o processo de criação realizado integralmente por meio de ilustrações, modelagem, animação e desenvolvimento digital, sem uso de inteligência artificial na produção das cenas. Tudo fruto de uma extensa pesquisa gráfica de fotografias históricas e de entrevistas com historiadores e historiadoras locais.

“Ao associar tecnologia, arte e memória, o Centro Dragão do Mar reforça seu compromisso com a valorização das lutas históricas que fizeram do Ceará a Terra da Luz. Ao celebrar a Data Magna, honramos o legado de Chico da Matilde e reafirmamos este território como espaço de reconhecimento, cidadania e justiça social”, afirma Camila Rodrigues, superintendente do Centro Dragão do Mar.

Dois atos, duas vivências
O projeto Ventos de Liberdade foi concebido como um conjunto de ações distribuídas pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Neste lançamento, serão apresentados dois capítulos iniciais: Ecos dos Dragões e De Matilde para Chico, ambos dedicados à reconstrução artística de momentos marcantes da abolição no Ceará, a partir da trajetória de Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, herói abolicionista de origem popular, nacionalmente aclamado como o Dragão do Mar. Para acessar as experiências, basta apontar o smartphone ou tablet para o mobiliário criado pela Amplitude Design Urbano e seguir as instruções exibidas na tela.

De Matilde para Chico propõe um mergulho sensorial e poético na vida de Chico da Matilde, o homem por trás do mito do Dragão do Mar. Nessa experiência, o público visualiza o diorama, maquete virtual em madeira que reconstitui sua infância no litoral de Aracati, apresentando o ambiente em que cresceu, marcado pela convivência entre os povos das águas do rio e do mar, sobretudo jangadeiros, labirinteiras e rendeiras.

Narrada pela própria Matilde, mãe de Chico, a experiência acompanha a formação do ideal de justiça que atravessaria a vida de seu filho e recria poeticamente a histórica greve dos jangadeiros, liderada por ele em articulação com sociedades abolicionistas, trabalhadores livres e pessoas escravizadas ou libertas. As jangadas que garantiam o sustento de muitas famílias também serviam para embarcar pessoas escravizadas em navios negreiros – sem elas, não havia travessia até os grandes vapores que atracavam ao longo da costa, já que o Porto de Fortaleza ainda não tinha cais estruturado.

Matilde, labirinteira de Aracati, mais precisamente da Praia de Canoa Quebrada, supostamente ficou viúva quando Francisco José do Nascimento ainda era criança. Cuidou sozinha de seu sustento e lutou pela sobrevivência em meio a precárias condições econômicas, tendo que conformar-se com a necessidade de ver o filho trabalhando desde a infância. É, portanto, a mulher líder de uma família monoparental, responsável pela formação ética e de caráter do filho que, não à toa, passou a ser conhecido como Chico da Matilde.

A matripotência e a estrutura familiar matrifocal fazem de Matilde, mãe do Dragão do Mar, uma representante ancestral não só das mulheres trabalhadoras de vilas pesqueiras, como das muitas famílias nordestinas e brasileiras em que a mãe é o eixo central da vida doméstica e inserção social. Portanto, a força dessas mulheres ganha o centro dessa experiência, como forma de reconhecimento e gesto político do Centro Dragão do Mar.

Foi dessa realidade que nasceu e cresceu “Chico da Matilde”. O apelido Dragão do Mar revela pertencimento, identidade e orgulho à figura materna. Em uma sociedade patriarcal, ser reconhecido publicamente pelo nome da mãe indica que Matilde era referência, âncora social e símbolo de respeitabilidade. Francisco carregou esse nome por toda a vida – inclusive nos momentos de maior projeção política – como gesto consciente de fidelidade às suas origens.

A segunda camada da experiência, intitulada Ecos dos Dragões, dá voz a personagens de diferentes origens e classes sociais que, assim como Chico da Matilde, fortaleceram e difundiram o movimento abolicionista cearense com coragem, poder de articulação junto a redes de apoio e estratégias de resistência cotidiana. Aqui, as jangadas, antes associadas ao tráfico, passam a simbolizar a luta por liberdade.

A experiência tem como ponto central a estátua do Dragão do Mar, transformada em marco cenográfico que conduz a narrativa do Totem em Realidade Aumentada. Ao redor dela, além do Dragão do Mar, surgem figuras relevantes do movimento abolicionista cearense: João Cordeiro, intelectual integrante da Sociedade Cearense Libertadora; Napoleão, negro liberto que comprou a própria alforria e foi líder entre os jangadeiros; Ponsiano, trovador escravizado que se soma à luta; e Joaquina, primeira esposa de Chico da Matilde e integrante da Sociedade das Cearenses Libertadoras, entidade criada em 1882 por e só para mulheres. As presenças de Napoleão, Ponsiano e Joaquina, em particular, representam pessoas escravizadas, corpos negros e mulheres abolicionistas, dando visibilidade a nomes que foram esquecidos ou apagados pela história dita oficial.

“Chico da Matilde, o Dragão do Mar, sintetiza um legado de bravura, insurgência e transformação social que marcou o Ceará. O centro cultural tem orgulho de ter seu nome vinculado a uma história de luta e vitória graças à pressão popular acumulada. São iniciativas como essa que também reforçam a responsabilidade do Estado com a luta que continua, antirracista e contracolonial, contrária a todo o tipo de violência e desumanização dos corpos negros. Com a implantação do totem de Realidade Aumentada, conectamos memória e tecnologia para que o público possa também lembrar que homens e mulheres comuns, vindos do povo, foram decisivos na quebra da engrenagem do sistema escravocrata imperial. Jamais subestimem a força dos Dragões do Mar e das Matildes, esse é o recado”, finaliza a superintendente.