HUC: histórias de vidas salvas e acolhidas marcam o primeiro ano de funcionamento

19 de março de 2026 - 12:03 # # # #

Eliezio Jeffry - Ascom Casa Civil - Texto
Hiane Braun e Helene Santos/Casa Civil e Luís Valente - Fotos
Yuri Leonardo - Casa Civil - Infografia


Uma das maiores unidades hospitalares do Norte e Nordeste reúne assistência de alta complexidade, formação de profissionais e produção de conhecimento

Há um ano, o Ceará deu um passo histórico na consolidação da saúde pública de alta complexidade com a inauguração, pelo Governo do Estado, de um dos maiores complexos hospitalares do Norte e Nordeste: o Hospital Universitário do Ceará (HUC). Com a missão de transformar a assistência em saúde, reunindo atendimento médico, formação de profissionais e produção de conhecimento em um único espaço, a unidade vem ampliando o acesso da população a serviços especializados e fortalecendo a rede pública. Dessa forma, tem contribuído para salvar vidas — como a de Yan Nickson.

Em tratamento oncológico, o jovem natural de Aratuba e atualmente residente no bairro Planalto Ayrton Senna, em Fortaleza, recebeu um diagnóstico que, em um primeiro momento, tirou o chão sob seus pés. Após a morte da mãe, Yan se mudou para a capital para realizar exames que confirmaram a doença e marcaram o início de uma nova etapa de sua vida. No HUC, ele se tornou o primeiro paciente atendido na ala de hematologia, onde segue em tratamento e acompanhando de perto os avanços da unidade que hoje faz parte da sua história.

“Foi uma recepção excelente, que eu não esperava”, lembra Yan, que passou por quatro internações e, nesse período, encontrou profissionais acolhedores, entre médicos, enfermeiros e técnicos, como a técnica de enfermagem Alipia Maria Aquino, que o recebeu no primeiro dia de internação. O encontro ocorreu na unidade para a qual Yan veio transferido, também da rede pública. “O Yan é um menino que tem uma história de muita força. Porque, antes do diagnóstico, ele teve a perda da mãe. Desde que chegou, toda a equipe gosta muito dele”, diz a profissional, que há oito anos se dedica a cuidar de outras pessoas na batalha pela vida.

No reencontro que presenciamos, Alipia se disse feliz e emocionada ao revê-lo. O sentimento tem um motivo especial: Yan contou que estava se sentindo “muito bem”. Após os procedimentos realizados no HUC como parte do tratamento, incluindo sessões de quimioterapia, ele afirma estar melhor do que antes. “Quando eu descobri a doença, estava mal, não me sentia bem, tinha dores de cabeça, tontura, e ao longo do tratamento eu tive uma melhora incrível”, declara.

Esse cenário, agora no passado, hoje é substituído pela esperança de cura. Yan retorna ao HUC mensalmente para seguir com o acompanhamento médico, sabendo que já conta com um doador compatível. Nesse percurso — da chegada ao hospital à etapa do tratamento que se aproxima do fim —, o paciente contou com o apoio da avó e do pai. Olhando para tudo ao seu redor, ele se emociona ao falar: “esse hospital representa amor, aconchego, abraço e consolo. Eu vejo tudo isso aqui”, finaliza.

Vida adiante

A mesma esperança que acompanhou Yan em cada etapa do tratamento também habita o coração de Andreza Kelly, mãe que viu a filha chegar ao mundo antes do tempo. Em histórias diferentes, mas dentro do mesmo hospital, ambos compartilham um sentimento em comum: a confiança na vida que insiste em seguir adiante.

Maria Laura nasceu no dia 8 de janeiro, com apenas 28 semanas de gestação. Logo após o parto, a recém-nascida precisou de suporte respiratório e foi encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do HUC. Andreza relembra os primeiros dias com emoção. “Ela veio direto para a UTI e ficou lá por dez dias. Depois passou mais seis dias na unidade de médio risco e, em seguida, viemos para o Canguru”, contou.

O chamado Método Canguru, adotado pelo serviço de Neonatologia do hospital, é uma estratégia de atenção humanizada voltada ao cuidado de recém-nascidos de baixo peso. A prática incentiva o contato pele a pele entre mãe e bebê e contribui para o desenvolvimento integral da criança, fortalecendo vínculos e auxiliando na recuperação dos pequenos pacientes.

Apesar do susto com o parto prematuro, Andreza afirma que já tinha o desejo de ter a filha no hospital. Ela conta que realizou o pré-natal na unidade e sonhava em dar à luz ali. “Eu já tinha feito todo o meu pré-natal aqui e tinha planos de ter minha filha no hospital. Mas, como foi uma situação de emergência, ela acabou nascendo em outro [hospital]. Mesmo assim, graças a Deus, depois foi transferida para cá”, relatou.

Durante a internação, Andreza diz ter encontrado acolhimento em cada etapa do cuidado. Segundo a mãe, a experiência no HUC trouxe segurança para o momento de voltar para casa com a filha. “A equipe toda é muito boa, desde a recepção até a limpeza. Todos são muito atenciosos e acolhedores”, afirmou.

Agora, com a alta médica, o sentimento é de alívio e gratidão. “Hoje eu estou muito feliz, porque já vamos para casa. Saio daqui segura para cuidar da minha filha, levando todos os ensinamentos que recebi da equipe sobre como devo agir daqui para frente”, disse a mãe, com a filha nos braços. Ela também falou sobre o futuro. Para Andreza, cada desafio enfrentado desde o nascimento prematuro de Maria Laura fortalece a esperança de dias melhores. “Eu sonho com um futuro bem promissor para ela. Diante de tudo o que minha filha passou, desde o nascimento até chegar até aqui, eu creio que ela vai ter um futuro muito bonito pela frente. Deus já cuidou de tudo.”

Ao avaliar o atendimento recebido durante a internação, a mãe faz questão de destacar o acolhimento encontrado em cada etapa do cuidado. “Foi um atendimento nota 10. Desde a recepção até a equipe médica, técnicas de enfermagem, psicólogos e o serviço social. A estrutura é maravilhosa, parece hospital particular”, disse.

Grata pela assistência recebida, Andreza não hesita em recomendar o hospital a outras famílias. Com Maria Laura pronta para ir para casa, ela leva consigo mais do que orientações médicas, carrega a certeza de que, depois de dias delicados, a vida agora começa a abrir caminhos cheios de possibilidades. “Eu já indico o hospital para todo mundo. E quero que minha filha continue sendo acompanhada aqui por muito tempo”, concluiu.

Visibilidade, acolhimento e cuidado

Natural da periferia de Fortaleza – como costuma se apresentar -, a antropóloga Melina Martins encontrou no Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans), do Hospital Universitário do Ceará (HUC), um espaço de acolhimento e acompanhamento integral em saúde. Atendida há quase um ano pela unidade, ela conta que sua trajetória é marcada pela educação pública e pelo desejo de ter acesso a um cuidado especializado durante o processo de transição de gênero.

“Eu venho da periferia de Fortaleza, fiz toda a minha formação em escola pública. Foi graças à educação pública e à universidade pública que me tornei antropóloga”, relata Melina, que morou em Santa Catarina durante a graduação e o mestrado. O retorno ao Ceará coincidiu com a inauguração do HUC, em março de 2025. Ao voltar para Fortaleza, ela buscava dar continuidade ao acompanhamento médico relacionado à sua transição de gênero e decidiu procurar o Sertrans, serviço que já conhecia por indicação de conhecidos.

“Eu sabia que o ambulatório do Ceará já era referência no Brasil no atendimento e na promoção da saúde da população trans”, afirma. Para iniciar o atendimento, ela seguiu o fluxo do Sistema Único de Saúde (SUS), passando primeiro pela Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro, de onde foi encaminhada ao serviço especializado.

A primeira impressão ao chegar ao HUC foi de surpresa com a estrutura da unidade. Segundo ela, o ambiente acolhedor e organizado quebra estereótipos que muitas pessoas ainda associam aos hospitais públicos. “A estrutura impressiona. Quando cheguei aqui, até questionei se realmente era um hospital público. Me senti em um ambiente confortável e bem estruturado”, relembra.

Mais do que a estrutura física, Melina destaca o modelo de atendimento multiprofissional como um dos principais diferenciais do Sertrans. No ambulatório, os pacientes contam com acompanhamento de diferentes especialidades. Para ela, esse cuidado integral é fundamental para garantir qualidade de vida durante o processo de afirmação de gênero. “Não é só uma consulta com o endocrinologista para a terapia hormonal. Existe todo um acompanhamento psicológico, social e médico que faz muita diferença para a nossa saúde como um todo”, explica.

Ela afirma que a qualidade de vida e a segurança no cuidado com a própria saúde melhoraram desde o início do acompanhamento. “Depois que comecei a ser acompanhada aqui, senti uma melhora muito significativa na minha saúde e na minha qualidade de vida”, relata. A experiência positiva fez com que ela passasse a indicar o serviço para outras pessoas trans.

A antropóloga avalia que iniciativas como o Sertrans representam avanços importantes nas políticas públicas voltadas à população trans no Ceará. Segundo ela, o serviço tem contribuído para reduzir barreiras históricas enfrentadas por essa população. Ela considera que ser uma mulher trans ainda é uma experiência marcada por dificuldades, mas também por resistência e coragem. “Não é fácil, é desafiador. Mas quando a gente se permite viver esse processo de afirmação de gênero, já é um ato de coragem. A população trans resiste todos os dias”, conclui.

Atendida pelo Sertrans desde maio de 2025, Melina celebra a existência de um serviço público que reconhece e acolhe a diversidade. Para ela, iniciativas como essa representam um passo importante para garantir dignidade e cuidado integral.

Ampla capacidade de atendimento

Com 498 leitos ativos, dos quais 80 são destinados à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto (40) e neonatal (40), o HUC conta com uma estrutura hospitalar planejada para atender casos de alta complexidade. Desde a abertura, em março de 2025, a unidade já ultrapassou a marca de 100 mil atendimentos realizados, número que evidencia o impacto da unidade na ampliação do acesso à saúde especializada no estado.

Ao longo desse primeiro ano, foram implantados diversos serviços especializados, como Cabeça e Pescoço, Cirurgia Vascular, Cirurgia Oncológica, Oncologia Clínica, Hematologia, Ortopedia, Cirurgia Geral, Cirurgia do Aparelho Digestivo, UTI Adulto, Clínica Médica, Obstetrícia, Ginecologia, Reumatologia, Pneumologia, Neonatologia e Urologia. O hospital também realiza exames laboratoriais e de imagem e atende pacientes do Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans).

O volume de atendimentos por área também se destaca e reflete a demanda por assistência especializada, além do papel do hospital como referência no atendimento de casos de média e alta complexidade em todo o Ceará. Somente nas áreas de oncologia e ortopedia, foram realizados mais de 28 mil atendimentos. No total, o HUC já soma 88.943 atendimentos ambulatoriais.

“Ultrapassar a marca de 100 mil atendimentos em apenas um ano representa muito mais do que números. Esse resultado evidencia a importância do HUC para ampliar o acesso da população aos serviços de média e alta complexidade, fortalecendo a rede pública de saúde do Ceará. Cada atendimento realizado reflete o empenho das nossas equipes e o compromisso do hospital em oferecer cuidado qualificado, humanizado e acessível à população”, ressalta a diretora-geral do HUC, Ivelise Brasil.

Estrutura

O Hospital Universitário do Ceará (HUC) possui uma área de 78,6 mil metros quadrados, distribuída em três torres (Clínica, Cirúrgica e Materno-Infantil) e sete pavimentos. A unidade dispõe, ainda, de 14 salas de cirurgia gerais e seis salas no centro cirúrgico obstétrico, 56 consultórios ambulatoriais para adultos e 15 pediátricos, além de 15 leitos obstétricos, 15 destinados à onco-hematologia e à cirurgia vascular e 10 leitos na Casa da Gestante.

A estrutura inclui também 24 leitos de recuperação pós-anestésica geral, sete obstétricos, 30 na Unidade de Breve Internação (UBI) e dois leitos de emergência, o que reforça a capacidade de resposta do equipamento em diferentes níveis de assistência. No complexo, foi construída uma praça de aproximadamente 3.400 m² na entrada principal do hospital, além de sete áreas de estacionamento pavimentadas, que somam um total de 2.026 vagas.