Ex-aluno da rede estadual em Paraipaba conquista bolsa integral em universidade nos EUA
26 de março de 2026 - 10:38 #conquista #educação #SEDUC
Ascom Seduc - Texto e Fotos

O estudante Vinícius Félix, de 19 anos, egresso de 2024 da rede pública estadual de ensino, conquistou uma vaga com bolsa integral na Williams College, universidade localizada na cidade de Williamstown, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos (EUA). Vinícius concluiu o curso técnico em Informática na EEEP Flávio Gomes Granjeiro, em Paraipaba, e agora se organiza para iniciar a faculdade de Ciência da Computação. A aprovação na instituição americana veio após um processo seletivo exigente, marcado por um período de dedicação intensa.
“Foram meses de noites em claro, redações, incertezas, lágrimas e uma saudade imensa de casa”, relata Vinícius, que atualmente mora em São Paulo. A mudança de estado ocorreu na intenção de se preparar para diferentes cenários enquanto aguardava o resultado da Williams College. “O processo foi brutal, mas o que parecia impossível virou realidade. A partir de agosto, troco o calor do Nordeste pela neve de Massachusetts”, assinala.
A trajetória de Vinícius é marcada por desafios desde a infância. O jovem lembra que cresceu em um contexto de limitações financeiras, observando de perto a luta dos pais, que não tiveram a oportunidade de concluir a educação básica na idade adequada. “Eu vi minha mãe precisar deixar a escola aos 14 anos para trabalhar, conseguindo concluir os estudos apenas muito tempo depois, por meio de um supletivo. Meu pai também não teve a chance de terminar o colégio”, observa.

Decisão
Neste cenário, Vinícius passou a enxergar a educação como meio essencial de transformação. “Para quem vem de baixo, a educação não é apenas o próximo passo, é a única ferramenta de sobrevivência para não ser invisibilizado. Queria provar que o nosso ponto de partida não precisa definir o nosso ponto de chegada”, diz.
Movido por este entendimento, o jovem buscou se envolver em iniciativas além da sala de aula, participando de projetos e olimpíadas de conhecimento. Ainda no Ensino Médio, criou o Instituto Terra Alien, uma ONG que atua ampliando o acesso à ciência e a oportunidades educacionais para outros estudantes. A ideia era construir caminhos para que mais jovens pudessem alcançar novos horizontes.
A decisão de estudar nos Estados Unidos surgiu como desdobramento do desejo de expandir possibilidades. Vinícius chegou a ser aprovado em Engenharia de Software na Universidade Federal do Ceará (UFC), e também em Ciência da Computação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mas optou por seguir o processo internacional. “Tive que escolher entre o caminho seguro e a incerteza. Escolhi o sonho”, resume.

Visão
Sobre a escolha pela Williams College, o estudante destaca o modelo educacional como diferencial. Ele explica que buscava uma formação mais abrangente, que permitisse conexões entre diferentes áreas do conhecimento. “Eu não queria ser apenas mais um número. O modelo da Williams exige que você participe, questione e cruze disciplinas em turmas muito pequenas. É uma comunidade extremamente unida, isolada nas montanhas de Massachusetts, desenhada não apenas para ensinar uma profissão, mas para formar cidadãos globais que entendem o impacto do que criam no mundo real”, afirma.
O interesse pela área de tecnologia, especialmente pela Ciência da Computação, surgiu da percepção de que a tecnologia pode gerar impacto em larga escala. Ao mesmo tempo, Vinícius reconhece os limites desta atuação isolada. Para o jovem, é fundamental compreender também aspectos econômicos e sociais. “O código pelo código não resolve nossos problemas estruturais”, pontua.
“É exatamente por isso que a oportunidade de estudar em um modelo de Liberal Arts na Williams College é tão crucial para mim. Lá, eu não serei treinado apenas para ser um programador técnico. Eu terei a liberdade de focar primariamente em Ciência da Computação, mas cruzando esse conhecimento com Economia e Ciências Políticas. Eu quero entender como a tecnologia afeta as economias em desenvolvimento, como os algoritmos podem perpetuar ou combater desigualdades, e como a inovação tecnológica precisa andar de mãos dadas com a formulação de políticas públicas justas”, destaca.
O processo seletivo para universidades americanas, segundo o estudante, vai além do desempenho acadêmico, e leva em conta uma série de fatores relacionados à prática de vida do candidato à vaga. Entre as etapas vencidas, Vinícius citou o envio do histórico escolar, testes de proficiência em inglês, redações pessoais e cartas de recomendação, além da análise das atividades extracurriculares, como projetos sociais e experiências profissionais.

“Eles adotam um modelo chamado ‘holístico’, o que significa que avaliam o candidato como um ser humano por inteiro, e não apenas por uma nota em uma prova de múltipla escolha. Eles buscam alunos que já fazem a diferença em suas comunidades. Foi nessa etapa que apresentei meu portfólio de atividades extracurriculares”, enumera.
Mesmo estando distante geograficamente da família, desde algum tempo, Vinícius mantém contato constante com os parentes e acompanha a repercussão da conquista na cidade natal. “O sentimento é de estarmos vendo a história ser escrita. É a prova viva para todas as crianças e jovens de Paraipaba, de que nós também podemos ocupar os espaços de maior prestígio do mundo. Mudar de país será um desafio gigantesco e a saudade vai apertar, mas saber que levo a força, a esperança e a torcida de toda a minha comunidade torna qualquer barreira pequena”, relata.
O estudante reconhece, ainda, o papel fundamental da escola pública na própria trajetória. Vinícius aponta que a EEEP Flávio Gomes Granjeiro foi decisiva para que se desenvolvesse em sentido amplo. “Lá, encontrei professores e direção que não apenas me deram uma base acadêmica forte, mas que acreditaram nas minhas ideias. O ambiente da escola técnica me ensinou a ter disciplina e me deu espaço para desenvolver projetos. Eles foram a rede de apoio que me permitiu sonhar com o exterior estando no interior do Ceará”, conclui.