Vale do Jaguaribe: pecuária leiteira se reinventa e cresce apesar da seca

6 de setembro de 2017 # #

Fotos: Ariel Gomes / SRH

Em seis anos de seca a pecuária leiteira cearense mantém trajetória de crescimento. Nesse período, já apontado por especialistas como a seca mais severa dos últimos 100 anos, as pastagens naturais diminuíram, os plantéis de vacas leiteiras estão menores, a água minguou. Como explicar, então, o desempenho do setor? A resposta pode ser resumida em uma palavra: tecnologia. Para conhecer de perto a realidade que alia melhoria genética dos rebanhos, adoção de práticas de silagem e a implantação da palma forrageira como base alimentar para os rebanhos, comitiva do Sistema Estadual dos Recursos Hídricos percorreu parte do Vale do Jaguaribe na última semana.

Um hectare de palma forrageira irrigada produz 500 toneladas de massa verde e 450 mil litros de água. Esse é o segredo dessa planta que foi introduzida no Nordeste Brasileiro para obtenção de corante destinado à indústria têxtil. “Plantada de forma correta, com os cuidados devidos, a cada hectare temos o correspondente em água a um pequeno barreiro.Com a diferença de que a água do barreiro evapora”, explica Raimundo Reis, pesquisador e sócio da Valle Verde Agropecuária, em Russas.

Os números são animadores. Mas, nem sempre foi assim, revela Reis. Segundo ele, a palma era plantada como um cacto qualquer, nos piores terrenos, sem os tratos culturais devidos. “Isso gerava resultados ruins, e a cultura acabava abandonada pelos pequenos produtores. Essa grande seca nos obrigou a procurar informações, que eram escassas. Há quatro anos, começamos aqui de forma bastante intuitiva”, detalha. Hoje, a Valle Verde trabalha com plantio adensado, de 70 mil raquetes por hectares. “O normal eram 5 mil raquetes por hectare”, lembra Reis.
SEMENTE – Raimundo Reis lembra que comprou primeiro a ideia da palma. “A gente que viu que era um alimento interessante, com alta produção por hectare, um valor nutricional excepcional e uma demanda hídrica muito baixa”, destaca. Reis ressalta ainda que a grande barreira a ser superada era da falta de mudas. “Não havia mudas no mercado, sobretudo das variedades resistentes a pragas”, conta.

“Fomos atrás da semente em Pernambuco, compramos 20 mil raquetes de três variedades. Dessa compra, hoje nós temos 30 hectares”, conta. Para chegar a essa área um longo caminho precisaria ser percorrido. “Vimos que havia demanda, mas na forma tradicional de plantio, com uma planta por raquete, levaríamos uma década para ampliarmos a área e ofertarmos mudas para o mercado”, diz Reis.

A solução foi ir de encontro ao pragmatismo que dominava o setor. De uma raquete, passaram a fazer várias mudas. “O pessoal técnico falava: rapaz isso não vai funcionar. Não dá certo”, conta Raimundo. As mudas eram feitas, além de respeitada proporção de uma para uma (raquete = muda), apenas com as palmas obtidas no terço médio de cada planta de dois anos. “Isso nos limitava demais. Não íamos ter mudas nunca, naquele ritmo. Hoje, com o novo método, a cada 90 dias temos novas sementes”.

PALMA X MILHO – Comparada ao milho, a palma forrageira leva grande vantagem quando cultivada no semiárido. “A palma rende até 500 toneladas por hectare ano quando irrigada. Isso dá 40 toneladas de matéria seca. É muita coisa por hectare”, ensina Reis. “Quando fazemos a pegada hídrica, não encontramos forrageira com esse rendimento. Isso com 1,7mm de água na irrigação. O milho consome 7 milímetros”, compara. Segundo Reis, nenhuma cultura forrageira consegue transformar tão pouca em tamanha quantidade de massa verde.

De acordo com os especialistas em nutrição animal, a Palma é rica em carboidratos, embora pobre em proteínas. “Eu não me preocupo com a proteína, a palma aqui é o nosso feijão com arroz”, revela Raimundo Reis, comparando a palma com a alimentação básica do brasileiro. “A proteína eu corrijo acrescentando ureia ou outro complemento. É fácil. Minha preocupação é com a energia, e isso a palma me garante”, diz. Cerca de 70% da dieta recomendada a uma vaca leiteira é de energia.

Outra grande vantagem da palma sobre o milho está relação produtividade/ água. A produção de um hectare de palma corresponde à de três hectares de milho. “Só que na palma eu utilizo 1,7 milímetro, enquanto no milho, são quase 10 vezes mais”, detalha Reis. A palma também pode ser submetida a grandes estresses hídricos, enquanto o milho morre sem água. “Outra coisa: a palma é uma cultura perene”, lembra Raimundo Reis.

Pequeno produtor encontra sustentabilidade na palma e na silagem

Francisco José Chaves Leitão, o Chico do Dico, é pequeno produtor de leito na área mais seca de Morada Nova, no vale do Jaguaribe. Em 22 hectares de área e apenas dois de pastagem irrigada e um módulo de mil metros quadrados de área de palma forrageira produz 300 litros de leite/dia. Sua meta é chegar a mil litros/dia.

O módulo de palma é financiado por uma grande indústria de lacticínio situada na região. “A Betânia financia 65% da implantação do lote, que são pagos em leite”, revela Chico. Satisfeito, o produtor revela que já chegou a vender o excedente de palma. “Vendi 100 mil raquetes”, conta. Segundo ele, com a venda da palma, apurou R$ 10 mi, o suficiente para pagar o financiamento do lote. “A implantação do lote me custou R$ 7 mil, só com as raquetes que vendi após dois anos, paguei do financiamento”, conta.

Chico revela que seu principal gargalo hoje é a falta de matrizes. “Com a seca, os produtores foram se desfazendo das vacas menos produtivas e investindo nas melhores. Hoje, temos alguma forragem, mas não tem matrizes no mercado”, explica. A meta do pequeno produtor é chegar a dois hectares de palma irrigada. E com isso atingir os tão esperados mil litros de leite/dia. “A palma é base, junto com a silagem e com um pequeno complemento de milho. Atualmente, os silos de Chico de Dico armazenam 100 mil quilos de forragem para o período mais seco ano.

Secretário elogia iniciativas

Para o Secretário dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, é reconfortante ver “in loco” o ressurgimento da pecuária leiteira em bases modernas. “Apesar da seca persistente, das dificuldades impostas pelo clima, o gado de leite passou a ser uma atividade econômica importante no Estado”, constata.

Teixeira destaca ainda a importância de uma indústria de lacticínios como âncora para o setor. “É necessário dar sustentabilidade ao setor, e a indústria trabalha em parceria com os pequenos produtores da região”, ressalta. O secretário pontua ainda a importância da adoção de novas práticas no setor, bem como a introdução da palma forrageira como base da alimentação dos rebanhos. “Trata-se de uma cultura adaptada ao nosso sertão, que viceja com apenas 20% da água que necessitariam outras culturas. Isso para o setor de Recursos Hídricos é fundamental”.

Participaram ainda da comitiva que percorreu o “Vale do Leite”, o secretário executivo da SRH, Aderilo Alcântara, o assessor especial da SRH, Francisco Viana, e o presidente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), João Lúcio Farias. A próxima visita será ao setor de fruticultura irrigada, ainda sem data definida. O grupo já conheceu de perto a experiência da criação de camarões e peixes com água subterrânea (poços).