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Poliomielite: da erradicação da doença no Brasil à prevenção contínua

22 de outubro de 2021 - 13:09 # # # # #

Erika Mavignier - Ascom Hias - Texto
Francisco Oliveira - Arte gráfica

Desde o dia 1º de outubro, a Campanha Nacional de Multivacinação busca diminuir a incidência e contribuir para o controle de doenças imunopreveníveis, como a poliomielite; iniciativa segue até o dia 29 deste mês

“Valorizem essa oportunidade que eu não tive”. Este é o apelo que faz a enfermeira do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Conceição Saraiva, a mães, pais e responsáveis para que vacinem suas crianças contra a poliomielite. Ela contraiu a doença com apenas cinco meses de vida e, hoje, aos 59 anos, relata como foi crescer tendo de conviver com as sequelas da pólio e os desafios que enfrentou e ainda enfrenta diariamente.

“Por causa da poliomielite, eu só andei com mais de dois anos, precisei usar uma bota até os 18 anos para alinhar o meu pé e fiquei com um encurtamento e uma atrofia na minha perna direita que faz com que eu tenha uma mobilidade reduzida. Graças à minha mãe, que sempre fez o que podia para eu viver melhor, consegui ter uma vida praticamente normal. Mais do que a limitação física, o que mais foi e é difícil de lidar é com o preconceito, que sofri inclusive por parte de pessoas da minha família”, relembra emocionada.

Na época em que Conceição contraiu a poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, em 1962, a vacina desenvolvida pelo cientista russo Albert Sabin, adotada pelo Ministério da Saúde um ano antes, já tinha chegado ao Brasil, mas ainda não estava disponível em todo o País. Em 1978, a vacina da pólio foi incluída no Programa Nacional de Imunização (PNI) e, em 1980, por meio da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite, passou a ser disponibilizada para todo o território nacional com o objetivo de imunizar toda a população infantil brasileira.

Albert Sabin, nome que batiza o hospital da Rede Sesa, foi um pesquisador médico conhecido por ter desenvolvido a vacina oral contra a poliomielite
Com a vacinação, os números de casos de poliomielite começaram a cair rapidamente e, desde 1989, não é identificado nenhum caso de infecção pela doença no País; o último registro no Ceará foi em 1988, no município de Crateús. Contudo, apesar de ter sido erradicada no Brasil e também nas Américas, a pólio continua sendo uma preocupação mundial, pois países como Afeganistão e Paquistão ainda são regiões endêmicas da doença.

“Como a poliomielite ainda não foi erradicada mundialmente, o poliovírus pode, a qualquer momento, ser reintroduzido no nosso País, uma vez que viajantes desses locais onde a doença ainda existe podem trazê-lo para cá. Por isso, para que ele não infecte as nossas crianças, é preciso que tenhamos uma cobertura vacinal adequada. No caso da pólio, conforme preconiza o Ministério da Saúde, essa cobertura deve ser de 95%”, alerta a pediatra e assessora técnica da Célula de Imunização da Sesa, Surama Elarrat.

Entretanto, segundo a médica, a cobertura vacinal no Brasil vem caindo nos últimos anos, gerando preocupações das autoridades em saúde, que temem que doenças já erradicadas no País retornem e voltem a ser ameaças para a população. De acordo com Elarrat, de janeiro a agosto deste ano, a cobertura vacinal de crianças que tomaram as três primeiras doses da Vacina Inativada Poliomielite (VIP), aos dois, quatro e seis meses de vida, está em apenas 70,33%. Quando contabilizadas as doses administradas da VIP e também a primeira dose de reforço, aplicada com a Vacina Oral Poliomielite (VOP), o percentual é ainda menor, de 59,93%.

Conscientização

Diante do atual cenário de queda na cobertura vacinal de crianças e adolescentes, o esforço para conscientizar as famílias sobre a importância da imunização precisa ser contínuo e deve envolver todos os agentes de saúde.

Para Conceição Saraiva, que teve poliomielite e escolheu trabalhar na área da Saúde, tendo já atuado como enfermeira do Estratégia Saúde da Família (ESF), em Quixadá, no Sertão Central cearense, os profissionais que acolhem essas famílias têm um papel fundamental na sensibilização da população. “Essa orientação da atenção primária é fundamental para que mães e pais não negligenciem o direito das crianças à vacinação”, reforça.

Coordenadora do ambulatório de Pediatria Geral do Hias, Socorro Alcântara afirma que o monitoramento do cartão de vacinas de pacientes da unidade faz parte da rotina de consultas

Na Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) Dom Aloísio Lorscheider, unidade onde funciona o ambulatório de Pediatria Geral do Hias, coordenado pela pediatra Socorro Alcântara, o monitoramento do cartão de vacinas dos pacientes faz parte da rotina de consultas. “Dentro da avaliação, da consulta de puericultura, um dos itens fundamentais e importantes que é abordado com todas as famílias é o calendário vacinal. Observamos, assim, de acordo com a faixa etária da criança ou adolescente, quais vacinas já foram realizadas, quais estão pendentes, e orientamos o cuidador, os pais, sobre a importância da vacinação”, detalha a médica.

Campanha Nacional de Multivacinação

Com o objetivo de diminuir a incidência e contribuir para o controle e a erradicação de doenças imunopreveníveis – como a poliomielite – em crianças e adolescentes menores de 15 anos de idade, o Ministério da Saúde está realizando, desde o dia 1º de outubro, a Campanha Nacional de Multivacinação. No último dia 16, foi realizado o “Dia D” para atualização do cartão de vacinação. A campanha segue até o dia 29 deste mês.

Último registro de poliomielite no Ceará foi em 1988, no município de Crateús.

De acordo com dados disponibilizados no site da campanha, desde o início da mobilização até a última segunda-feira (18), foram aplicadas 1.063.034 doses em todo o Brasil dos imunizantes disponibilizados; destas, 117.298 foram vacinas contra a poliomielite. No Ceará, foram administradas 67.203 doses no total, sendo 5.290 imunizantes da pólio.

Dia Mundial de Combate à Poliomielite

No dia 24 de outubro é celebrado o Dia Mundial de Combate à Poliomielite, estabelecido pelo Rotary Internacional em homenagem ao nascimento de Jonas Salk, cientista que desenvolveu o primeiro imunizante contra a doença, a Vacina Inativada Poliomielite (VIP). A data foi instituída para reforçar a importância do imunizante da pólio para proteger as crianças contra a enfermidade.